
Maputo, 02 jul 2026 (Lusa) — O antigo Presidente moçambicano Armando Guebuza considerou hoje a xenofobia na África do Sul um momento de “turbulência” para o continente, pedindo união na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para acabar com a crise.
“Dei exemplo na minha intervenção de alguém que estivesse a navegar e que tivesse momentos de turbulência e isso não significa que não vai chegar ao destino e bem. Temos um momento de turbulência ao nível da nossa região, mas esta turbulência vai reforçar a nossa convicção de que o único mecanismo que temos é continuar como aquela SADC que foi há alguns anos atrás, em que as pessoas todas sabiam que a SADC estava unida, organizada e fazia os seus combates e tinha bons resultados”, disse.
O antigo chefe de Estado falava à margem da 25.ª Conferência Anual da Associação dos Advogados da SADC (SADC-LA, na sigla inglesa), onde, questionado pelos jornalistas sobre eventuais soluções para acabar com a violência xenófoba naquele país, disse não saber “como se trava o vento com as mãos”, remetendo a solução para as autoridades governamentais moçambicanas em coordenação com a África do Sul.
“Estamos numa situação de crise, há turbulência, acontece em qualquer lugar e neste caso é na África do Sul, nós vamos encontrar fórmulas, através dos nossos órgãos, de resolver isto e o facto de termos esta reunião aqui dos advogados (…) mostra que o fator determinante e constante nosso é a unidade”, insistiu Guebuza.
“Eu não quero que haja essa turbulência, é óbvio que defendo as posições da SADC e que avança no sentido de maior coesão e maior integração. Como numa turbulência, vamos combater a turbulência”, afirmou.
Questionado se o aumento do emprego no país pode acabar com o problema da emigração, Guebuza referiu que o relacionamento entre países tem muitos outros fatores que vão para além da empregabilidade.
“Se nós todos tivermos, e penso que é isso que nos orienta, objetivos comuns, com agendas comuns e trabalho em conformidade com agenda, isso sim, resolve os problemas”, declarou.
Já o bastonário cessante da Ordem dos Advogados de Moçambique, Carlos Martins, disse que a situação dos moçambicanos naquele país vizinho é penosa, criticando a falta de soluções concretas do Governo face ao problema de emprego.
“Não parece que sejam questões políticas apenas, são questões sociais e elas muitas vezes têm este impacto sobre os políticos porque vivem de momentos, desafios e eleições. O que digo é que as razões de solidariedade, de fortalecimento da região devem ser olhados com outros olhos hoje. Apesar de defendermos a solidariedade, devemos começar a pensar em nós próprios, o que podemos fazer aqui para que os nossos cidadãos deixem de imigrar. Não podemos viver a culpar os outros”, disse Martins.
Manifestantes anti-imigração sul-africanos fizeram um ultimato até 30 de junho, terça-feira, para todos os estrangeiros abandonarem o país e o Governo da África do Sul anunciou nos últimos dias restrições às políticas migratórias e o reforço da segurança.
Pelo menos 283 moçambicanos foram agredidos, viram as suas casas incendiadas e bens vandalizados, avançou, na quarta-feira, o Governo de Moçambique, que tenta assegurar assistência e o repatriamento.
Antes, o Governo moçambicano admitiu desafios relativos ao repatriamento e reintegração de cidadãos nacionais, quando nove moçambicanos já foram mortos e 738 repatriados devido aos ataques.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, reconheceu na quarta-feira o agravamento da xenofobia na África do Sul, na sequência de incidentes violentos envolvendo cidadãos moçambicanos, e garantiu existirem condições logísticas para o repatriamento e acolhimento das vítimas.
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