Xiquitsi leva timbila aos grandes palcos e projeta cultura moçambicana além-fronteiras

Maputo, 22 jun 2026 (Lusa) — O programa Xiquitsi está a afirmar instrumentos e sonoridades moçambicanas nos principais palcos nacionais e internacionais, formando jovens músicos e transformando timbila num dos símbolos da presença cultural moçambicana no mundo, partilhando palcos até com instrumentos clássicos.

“Estamos realmente a fazer a diferença enquanto Moçambique, enquanto moçambicanos e Xiquitsi, que é colocar os nossos instrumentos, as nossas tradições, aquilo que nos enriquece que nos identifica, além-fronteiras”, conta à Lusa a diretora do programa, Eldevina Materula.

No Cine-Teatro Scala, baixa de Maputo, dezenas de crianças e jovens ocupam-se em torno do palco de ensaio e formação, onde se cruzam violinos, violoncelos, contrabaixo, instrumentos de sopro, coro, percussão e a timbila, instrumento da família dos xilofones, típico do sul de Moçambique.

Criado em 2013 pela Associação Kulungwana, o Xiquitsi, nome de outro instrumento tradicional, nasceu como um programa de ensino coletivo de música e cresceu até se tornar uma das principais iniciativas de formação artística do país. Atualmente, acolhe gratuitamente crianças e jovens dos 5 aos 20 anos, oferecendo formação em cordas, coro, composição, teoria musical, sopros, percussão e instrumentos tradicionais moçambicanos.

Entre partituras, instrumentos alinhados e grupos concentrados nos ensaios, o espaço acolhe um trabalho que procura utilizar a música como ferramenta de transformação social e de valorização da identidade cultural moçambicana.

Eldevina Materula – Kika, como todos a conhecem – foi ministra da Cultura e Turismo entre 2020 e 2025, mas nunca deixou o projeto, que iniciou com aulas de violino, viola, violoncelo e contrabaixo, tendo integrado posteriormente novas áreas para responder ao crescimento do interesse dos jovens pela música.

“Começámos com violinos, violas, violoncelo, contrabaixo. Um pouco mais à frente trouxemos a classe de coro. Um pouco ainda mais à frente introduzimos a classe de sopro, clarinete e o oboé […], e este ano, em 2026, introduzimos a classe de saxofone”, recorda.

O objetivo foi sempre utilizar a música como instrumento de inclusão social e de desenvolvimento humano, formando jovens capazes de interpretar, criar e compreender diferentes linguagens musicais, sem perder a ligação às suas raízes culturais.

Ao longo dos últimos 13 anos, o programa desenvolveu um trabalho de aproximação entre instrumentos associados à tradição erudita europeia e sonoridades moçambicanas, com especial destaque para a timbila, considerada um dos principais símbolos culturais do país, utilizada pelo povo Chopi (Inhambane, no sul).

Desde 2005 que o instrumento, composto por lâminas de madeira (árvore mwenge) montadas sobre cabaças de ressonância, é classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês).

Para Materula, a valorização que o projeto também tem dado à típica timbila demonstra que os instrumentos moçambicanos podem ocupar espaços tradicionalmente reservados à música clássica internacional.

“Hoje a timbila é tocada ao lado de um vibrafone ou ao lado de uma marimba, coisa que anteriormente era quase impossível”, destaca, afirmando que a valimba é o instrumento que pretendem introduzir na formação.

Ainda recentemente, explica, assistiu, em Milão, Itália, à presença da timbila numa apresentação realizada no Teatro alla Scala, uma das mais prestigiadas salas de ópera do mundo, ao lado de instrumentos e músicos de referência internacional.

Segundo Materula, o trabalho desenvolvido não se limita à divulgação dos instrumentos tradicionais, abrangendo também a criação artística e a formação de novos compositores moçambicanos.

“Tenho muito orgulho em olhar para a minha classe de composição e ver jovens compositores moçambicanos, a visão da música no cérebro dos moçambicanos a ser interpretada por outros instrumentos, por outras sociedades”, afirma.

A responsável acrescenta que o programa investe igualmente na construção, manutenção e reparação de instrumentos, na leitura musical e na produção de novas obras, procurando fortalecer toda a cadeia de valor associada à música.

“Mais do que instrumentos tradicionais, nós estamos a levar Moçambique, a nossa cultura, as nossas tradições, estamos a afirmar e fazer valer. Estamos a colocar as nossas tradições nos melhores e maiores palcos a nível do mundo e nos grandes palcos moçambicanos”, sublinha.

Na área da percussão e da timbila, o trabalho é desenvolvido por especialistas como Cheny Wa Gune, músico, concertista e construtor de instrumentos, que integra o programa desde 2018. Segundo o professor, a metodologia utilizada combina observação, imitação e participação direta na cultura associada à timbila, procurando preservar formas tradicionais de aprendizagem.

“É gratificante poder massificar a cultura desses nossos instrumentos musicais aqui numa academia que também converge com os outros instrumentos musicais do mundo”, afirma, explicando que vários alunos formados ao longo dos últimos anos seguiram carreiras ligadas à música, alguns como concertistas e outros como monitores e professores.

A componente prática é complementada pelo ensino de teoria musical, leitura de partituras e história da música. Estêvão Chissano, antigo aluno e atualmente professor do programa, explica que a formação procura desenvolver uma compreensão mais ampla do fenómeno musical.

“Ser músico não é só saber tocar, mas é entender todo o contexto que envolve (…) é ler a partitura”, diz Chissano, apontando que o Xiquitsi tem promovido a integração de instrumentos moçambicanos em novas composições e projetos artísticos, incluindo experiências recentes que envolveram a utilização da mbira em formatos como a ópera.

O impacto da iniciativa é visível entre os próprios alunos, como Arnold Almeida. Aos 17 anos, frequenta as aulas de percussão desde o final de 2025 e encontrou uma oportunidade para aprofundar conhecimentos musicais e desenvolver novas competências.

“Já gostava de música, só não queria fazer percussão exatamente. Queria fazer bateria”, conta, acrescentando que agora toca quase tudo e aproveitou para fazer “novas amizades”.

Também Marçole Moiane, de 12 anos, ingressou este ano no projeto para aprender timbila, incentivada por familiares que já conheciam o programa.

“Gosto de timbila, gosto muito de ouvir músicas tradicionais”, diz.

O crescente interesse pelo programa reflete-se na procura registada este ano. Segundo a direção, mais de 200 candidatos tentaram entrar, mas a capacidade disponível permitiu acolher menos de metade.

Para Materula, os números demonstram a necessidade de ampliar as oportunidades de formação artística para crianças e jovens moçambicanos, numa área que continua a enfrentar limitações de financiamento.

Apesar dos desafios, a diretora diz que vários antigos alunos prosseguem atualmente estudos em instituições nacionais e estrangeiras, enquanto outros desenvolvem carreiras profissionais ligadas à música, contribuindo para a divulgação do conhecimento adquirido no programa.

“Quanto mais fazemos, quanto mais investigamos, quanto mais misturamos, mais rico fica o mundo”, conclui.

 

EYMZ // VM

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