Iémen: Mais de 2,2 milhões de crianças iemenitas sofrem de subnutrição aguda – ONU

Nações Unidas, 16 jun 2026 (Lusa) – A crise humanitária e a fome no Iémen estão a intensificar-se, alertou hoje a ONU, frisando que mais de 2,2 milhões de crianças iemenitas com menos de 5 anos sofrem de subnutrição aguda.

Numa reunião do Conselho de Segurança da ONU centrada na situação no Iémen, o coordenador de ajuda de emergência das Nações Unidas, Tom Fletcher, indicou que, em apenas um mês, a proporção da população incapaz de satisfazer as suas necessidades alimentares básicas passou de metade para quase 60%.

“Aqueles que enfrentam a privação mais extrema aumentaram de um em cada quatro para cerca de um em cada três. Hoje, mais de 18 milhões de pessoas — mais de metade da população — passam fome aguda. Sem uma ação urgente, esta situação irá agravar-se”, apontou Fletcher.

Nas zonas controladas pelas autoridades governamentais reconhecidas pela comunidade internacional, quase metade da população — cerca de cinco milhões de pessoas — enfrenta um cenário de fome severa. Mais de um quarto está em situação de emergência, disse ainda Tom Fletcher.

A ONU não consegue ter acesso às zonas controladas pelos rebeldes xiitas Huthis. No entanto, Fletcher sublinhou que a “falta de dados não significa a ausência de necessidade”.

“Os iemenitas podem estar fora de vista, mas não devem ser esquecidos. Após repetidas detenções arbitrárias, a ONU teve de reavaliar as suas operações diretas nestas áreas. Mas a ação humanitária continua e tem de continuar”, defendeu o líder humanitário, embora também destacando que “menos acesso, menos presença e menos financiamento significam menos alimentos, menos medicamentos e menos vidas alcançadas”.

Se nada mudar, garantiu o representante, a fome agravar-se-á, assim como o sofrimento e a perda de vidas. 

“Uma crise de fome não se resume a pratos vazios. São vidas e futuros roubados. Mais de 2,2 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem de subnutrição aguda. Sem apoio contínuo, muitas sofrerão consequências para toda a vida”, reforçou o coordenador de ajuda de emergência.

De acordo com a ONU, a situação atual é resultado de uma combinação letal de conflito, colapso económico, aumento dos preços e perda de meios de subsistência, agravados por um sistema de saúde sobrecarregado.

Durante quase três anos, “as ondas de choque regionais têm complicado as perspetivas para o processo de paz no Iémen”, disse também hoje o enviado especial da ONU para o Iémen, Hans Grundberg, igualmente presente na reunião do Conselho de Segurança.

O enviado expressou esperança de que o recente acordo de paz entre o Irão e os Estados Unidos marque “um ponto de viragem” na região.

Em termos militares, Grundberg afirmou que as consequências do recente conflito no Médio Oriente foram “relativamente contidas”, notando que não foram observados novos ataques à navegação comercial no mar Vermelho e que a “relativa calma” dentro do Iémen desde o cessar-fogo de 2022 continua a manter-se.

Mas o conflito no Iémen permanece sem resolução, salientou.

O conflito regional aumentou a pressão sobre a economia iemenita, elevando o custo dos alimentos e combustíveis importados e amplificando as pressões inflacionárias.

Embora a doação de 150 milhões de dólares (cerca de 129 milhões de euros, ao câmbio atual) da Arábia Saudita para o fornecimento de combustível a centrais elétricas tenha sido “crucial”, o enviado da ONU afirmou que, “em última análise, as questões fundamentais que estão na raiz do sofrimento do povo iemenita só podem ser abordadas de forma sustentável através de negociações entre as partes e um processo político inclusivo sob os auspícios da ONU”.

O conflito no Iémen causou dezenas de milhares de mortos e mergulhou o país árabe numa das piores crises humanitárias do mundo.

Os rebeldes xiitas Huthis controlam uma parte significativa do Iémen, incluindo a capital Sanaa, e são aliados do Irão.

A localização geográfica do Iémen, no sudoeste da península da Arábia com a Arábia Saudita a norte e Omã a leste, tem permitido aos Huthis ameaçar a navegação na zona do mar Vermelho.

 

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