
Maputo, 04 jun 2026 (Lusa) — Cerca de 1.200 pessoas, incluindo quase 500 crianças e 45 grávidas, fugiram nas últimas semanas para a vila de MocÃmboa da Praia, após novos ataques armados na provÃncia moçambicana de Cabo Delgado, segundo relatório da ACNUR.
De acordo com o levantamento da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), divulgado hoje, trata-se de 258 famÃlias e os deslocamentos ocorreram após três ataques registados entre abril e maio, provocando deslocações em massa, sobretudo a partir de 22 de maio.
Até finais de maio estavam contabilizados 1.200 indivÃduos deslocados em MocÃmboa da Praia, sendo que outras famÃlias permanecem em trânsito ou “temporariamente abrigadas em zonas de mato devido à insegurança e restrições de movimento”.
A provÃncia de Cabo Delgado, norte de Moçambique, rica em gás natural, enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou mais de 6.600 mortos, segundo organizações internacionais.
Os mais recentes testemunhos recolhidos em MocÃmboa da Praia por aquela agência das Nações Unidas indicam que os ataques incluÃram agressões fÃsicas, ameaças, mortes, saques, destruição de bens, roubo de equipamentos de pesca e barcos, “e ataques violentos contra mulheres”. A maioria dos deslocados chegaram à quela vila provenientes de Nabaje e de comunidades piscatórias locais.
Muitos percorreram “longas distâncias” a pé, mas outros ficaram para trás para proteger bens ou devido a limitações fÃsicas.
No total, entre os deslocados sinalizados pelo relatório, estão 433 mulheres adultas, 301 homens e 466 crianças. Entre os grupos mais vulneráveis encontram-se “45 mulheres grávidas e 62 idosos”, além de pessoas com deficiência e famÃlias separadas.
O relatório alerta que os deslocados enfrentaram “exposição repetida à insegurança, ameaças, agressões fÃsicas e saques”, tendo o impacto da violência gerado medo generalizado e sofrimento psicológico. As mulheres foram particularmente afetadas, com relatos de casos de “mulheres que sofreram ferimentos graves após serem espancadas e que necessitaram de hospitalização”.
Atualmente, a maioria das famÃlias encontra-se acolhida por parentes ou membros da comunidade local, o que “tem contribuÃdo para a sobrelotação e tensões sociais”, alerta ainda o relatório.
Além disso, surgem riscos acrescidos de exploração, com mulheres a reportarem “pressão para contribuir financeiramente apesar de não terem rendimentos”, bem como exigências de trabalho doméstico em troca de abrigo e alimentos.
As crianças também enfrentam dificuldades, incluindo situações de “intimidação e discriminação em alguns agregados familiares de acolhimento”, contribuindo para sentimentos de exclusão.
A insegurança alimentar é uma das principais preocupações, sendo que “os agregados deslocados dependem quase totalmente das famÃlias anfitriãs para alimentação”. Alguns já começaram a vender bens pessoais para sobreviver, uma estratégia considerada no documento como insustentável.
A perda de meios de subsistência agrava a situação, uma vez que a maioria dependia da pesca, e “os agregados recém-chegados não retomaram a atividade piscatória nem estabeleceram meios alternativos de subsistência”.
A organização ACLED registou oito eventos violentos nas duas últimas semanas de maio na provÃncia moçambicana de Cabo Delgado, seis envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram oito mortos, elevando para 6.624 os óbitos desde 2017.
De acordo com o último relatório da organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), noticiado hoje pela Lusa, com dados de 18 a 31 de maio, dos 2.397 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.214 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).
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