Exposição de Grada Kilomba em Sintra revela fundo do mar como “arquivo da Humanidade”

Lisboa, 26 mai 2026 (Lusa) — Uma exposição da artista Grada Kilomba reunindo obras de grande dimensão, inéditas no país, resultado de uma reflexão sobre memória, violência histórica e crise climática a partir do oceano como arquivo da existência humana, é inaugurada no sábado, em Sintra.

“É a maior exposição que fiz até à data em Portugal e por isso é muito importante”, disse a artista, em entrevista à agência Lusa, acrescentando que irá apresentar na Albuquerque Foundation obras produzidas nos últimos dois anos para instituições internacionais, como o Kunsthalle Baden-Baden, na Alemanha, o Museu Rainha Sofia, em Espanha, e o Museu Inhotim, no Brasil.

Intitulada “O Fundo do Mundo”, a mostra junta obras que têm percorrido os diferentes continentes, mas serão vistas pela primeira vez em Portugal, disse a artista, que trabalhou com o curador italiano radicado no Brasil Jacopo Crivelli Visconti para reunir instalação, vídeo, escultura, desenho, maquetes e paisagens sonoras.

Para Grada Kilomba, o projeto assume também uma dimensão pessoal, não apenas pela colaboração com o curador, com quem desejava trabalhar “há muitos anos”, mas pelo regresso a Sintra, concelho onde cresceu, disse à Lusa a artista que em 2023 foi co-curadora da 35.ª Bienal de São Paulo e, em 2024, recebeu a Cátedra Angela Davis na Universidade Goethe, na Alemanha.

A exposição parte de uma pergunta central: “O que o fundo do oceano nos diria amanhã se fosse esvaziado de água hoje?”. Segundo Kilomba, essa questão filosófica tem orientado a sua investigação artística nos últimos três anos.

“Se o oceano desaparecesse, iríamos observar corredores de corpos humanos, trilhas e passagens que revelam centenas de anos da história da Humanidade, da travessia transatlântica da escravatura ao colonialismo, guerras, genocídios, as travessias do Mediterrâneo”, enumerou, sobre um historial de violência que os oceanos escondem e preservam, ao mesmo tempo.

A partir desse cenário imaginário, a artista, nascida em Lisboa, em 1968, e que vive e trabalha em Berlim, na Alemanha, constrói uma reflexão sobre as marcas deixadas pela Humanidade no fundo dos oceanos, associando memória geológica e violência histórica.

“São corpos que caem no fundo do oceano e revelam políticas e pedaços de história escondidos e sempre revelados na natureza. O mar é um arquivo da existência humana”, apontou Grada Kilomba, cujo trabalho já foi apresentado em certames de arte contemporânea como a Bienalsur, em Buenos Aires (2021), a 10.ª Bienal de Berlim (2018), a Documenta 14 (2017) e a 32.ª Bienal de São Paulo (2016).

“A natureza é capaz de arquivar a memória da nossa existência”, sustentou a artista que tem origens familiares de São Tomé e Príncipe e de Angola.

Licenciada em Psicologia Clínica e Psicanálise no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa, Grada Kilomba doutorou-se na Universidade Livre de Berlim, onde mais tarde lecionou em instituições de referência como a Universidade Humboldt, no departamento de Estudos de Género.

A sua tese de doutoramento deu origem àquela que é a sua obra literária e teórica mais conhecida internacionalmente: “Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism”, publicada originalmente em inglês em 2008 e traduzida em Portugal como “Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano”.

Nesta nova mostra, a materialidade das obras assume um papel central, recorrendo a elementos naturais como rocha, vidro, algodão, areia, pedra e madeira. “A materialidade define também o que está por detrás da obra”, observou à Lusa, sobre o significado dos materiais.

Entre as instalações apresentadas estará “18 Verses” (2022), obra de grande escala em madeira queimada, criada a partir de uma investigação sobre a Floresta Negra, na Alemanha: “Descobrimos que essa foi a fonte de fornecimento de madeira para o sul da Europa construir os barcos que cruzavam os três continentes no comércio de escravos”, disse, referindo-se a árvores seculares.

Outra das peças centrais da mostra será “Compressed Time”, instalada no jardim da fundação, construída em torno de rochas locais e de um cubo de vidro colocado no interior da escultura. A obra representa, segundo Kilomba, “a fragilidade humana”, procurando questionar “os horrores do agora”.

“A fragilidade de revelar a beleza e ao mesmo tempo o poder destruir. Essa transformação pode ser tão rápida, de um momento para o outro”, afirmou a criadora cuja obra está representada, entre outras, em coleções como a da Tate Modern, em Londres, a Rennie Collection, em Toronto, o International African American Museum, em Charleston, ou o Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa.

A exposição inclui igualmente “Opera to a Black Venus” (2024), uma instalação vídeo de grande escala criada a partir de filmagens numa pedreira em Almoster, perto de Lisboa, e para a qual Kilomba trabalhou com um coro de 30 pessoas, entre sopranos, tenores e contraltos, oriundos da capital portuguesa e das diásporas africanas, além de bailarinos de ballet clássico.

“São eles que se tornam os corpos e as vozes deste trabalho”, explicou a autora, acrescentando que a instalação inclui ainda um piano tocado “a quatro mãos” por si própria e pela filha mais nova, na altura com 10 anos, e que assume a narração da obra.

Ao longo da entrevista, Grada Kilomba insistiu na necessidade de criar novas linguagens artísticas para abordar temas como guerra, colonialismo, genocídio, violência e crise climática, defendendo aquilo a que chama “desobediência poética”.

“O vocabulário que nos foi dado no passado, semântico ou visual, já não consegue contar a atualidade”, sustentou a artista, acrescentando que “as coisas passam a existir a partir do momento em que têm um nome” e, “se não têm uma palavra ou imagem, continuam a ser fantasmas”.

Kilomba acredita que “essa é a tarefa do artista: criar um vocabulário para o fundo do mundo, para aquilo que é revelado mesmo que seja apagado”, e que a função da arte passa por “interromper esse vocabulário e imaginário coletivo”, criando novas formas de representar experiências traumáticas e realidades frequentemente silenciadas.

“A grande função de ser artista é trabalhar com os temas mais difíceis da sociedade”, afirmou, referindo-se à guerra, genocídio, colonialismo, violência e desumanização.

“Começar a tematizar aquilo que parece impossível tematizar, tornar visível o que não compreendemos, pode ser uma linguagem visual e sonora, especialmente quando se trata de traumas e violência”, acrescentou.

Descrito como transdisciplinar, o trabalho de Grada Kilomba cruza coreografia, som, escultura, instalação, vídeo e performance, construindo ambientes imersivos em que o público participa fisicamente na experiência artística.

“O público entra, caminha e deixa de ser apenas um observador, passa a fazer parte da própria arte e experiencia os cheiros, as cores, os sons”, explicou, considerando que esse envolvimento “também é um elemento descolonizador”.

Além das obras de grande escala, a mostra apresentará desenhos, maquetes e esculturas de menor dimensão, e ficará patente no Pavilhão de Exposições Contemporâneas da Albuquerque Foundation até 26 de setembro.

A inauguração, marcada para sábado, das 15:00 às 18:00, inclui uma performance concebida especificamente para a exposição, estando previsto um programa público ao longo de toda a mostra.

*** Ana Goulão, da agência Lusa ***

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