
Pequim, 25 mai 2026 (Lusa) – O Presidente chinês, Xi Jinping, criticou duramente a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pela “remilitarização” do Japão durante a cimeira com o Presidente norte-americano, Donald Trump, em meados de maio, reportou o jornal Financial Times (FT).
Citando várias fontes não identificadas com conhecimento da cimeira, o jornal apontou que, durante o encontro, Xi se tornou particularmente vocal e agitado ao abordar o Japão, surpreendendo responsáveis norte-americanos, já que o tema não tinha surgido nas conversações anteriores com os homólogos chineses.
Várias fontes afirmaram ao FT que o ataque verbal de Xi foi o momento mais acalorado da cimeira que ocorreu de 14 a 15 de maio.
Após Xi ter criticado Takaichi e o aumento das despesas de defesa japonesas, Trump respondeu que Tóquio precisava de assumir uma postura de segurança mais assertiva devido à crescente ameaça da Coreia do Norte.
Christopher Johnstone, antigo responsável da Casa Branca para o Japão, disse ao jornal que a “abordagem cáustica” de Xi e o esforço para explorar o desejo de Trump por relações estáveis entre EUA e China apenas reforçaram a aposta de Tóquio na autossuficiência em matéria de segurança.
“É notável a falta de autoconsciência de Xi. As suas próprias ações estão a acelerar o surgimento de um Japão muito mais forte”, afirmou Johnstone.
Segundo o analista, a “retórica anti-Japão da China não tem eco fora das suas fronteiras”, comentando que Tóquio está a reforçar laços de segurança com parceiros regionais — incluindo Austrália, Filipinas e até Coreia do Sul — todos “mais preocupados com uma China agressiva do que com um Japão em remilitarização”.
Desde 2023, o Japão tem descrito as atividades militares chinesas como o “maior desafio estratégico” do paÃs, à frente da ameaça da Coreia do Norte, manifestando “séria preocupação” com o aprofundamento da cooperação militar entre China e Rússia.
As relações entre Pequim e Tóquio deterioraram-se desde novembro, quando a China reagiu com indignação à s declarações de Takaichi no Parlamento nipónico de que um ataque chinês a Taiwan poderia constituir uma “ameaça existencial” para o Japão, justificando o recurso à s suas forças armadas.
Desde então, Pequim tem mantido um tom constante de ataques ao Japão, combinando retórica com medidas concretas, como restrições às exportações de terras raras.
Na sexta-feira passada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou que o Japão aumentou em 2025 a despesa militar em 9,7%.
“Apesar de o orçamento de defesa japonês ter aumentado durante 14 anos consecutivos, as forças de direita continuam a exigir mais gastos”, acrescentou, acrescentando que a “máscara de ‘paÃs pacÃfico’ do Japão está a cair e que o paÃs desliza para o neo-militarismo”.
A China, o segundo paÃs com o maior volume de despesas militares, aumentou em 2025 a despesa em 7,4%, para 336 mil milhões de dólares (288,9 mil milhões de euros), o 31.º aumento anual consecutivo, segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI).
O Japão, no mesmo ano, gastou 62 mil milhões de dólares (53,3 mil milhões de euros).
Um alto responsável norte-americano, que o FT também não identifica, disse que Trump “sublinhou o profundo respeito pelo povo japonês e a sua relação pessoal próxima com a primeira-ministra Takaichi”. A delegação dos EUA lembrou ainda aos homólogos chineses a forte presença militar norte-americana no Japão.
O jornal noticiou também que Washington informou este mês o Japão de atrasos significativos na entrega de 400 mÃsseis Tomahawk encomendados em 2024.
O FT contactou a embaixada chinesa em Washington, que não comentou as alegadas declarações de Xi, mas afirmou que “forças de direita japonesas” tentam “abalar os alicerces da paz regional”.
O gabinete da primeira-ministra japonesa recusou oferecer comentários sobre o incidente reportado pelo FT.
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