Embaixador cubano em Portugal diz que acusação dos EUA a Castro representa escalada

Lisboa, 21 mai 2026 (Lusa) — O embaixador de Cuba em Lisboa considerou hoje a acusação dos Estados Unidos contra Raúl Castro como uma “escalada” da tensão entre Washington e Havana, admitindo “qualquer ação” contra a ilha, que está preparada para “todos os cenários”.

Raúl Castro — dirigente histórico da Revolução Cubana, irmão de Fidel Castro e Presidente de Cuba entre 2008 e 1018 – foi formalmente acusado nos Estados Unidos por alegado envolvimento no abate de duas aeronaves civis cubanas, em fevereiro de 1996, um episódio que provocou quatro mortos, incluindo três cidadãos norte-americanos. 

A acusação inclui crimes como conspiração para matar cidadãos americanos, destruição de aeronaves e homicídio, num caso que Washington recupera quase três décadas depois.

Em entrevista telefónica à Lusa, o embaixador cubano em Lisboa, José Ramón Saborido Loidi, classificou a iniciativa norte-americana como um “ato desprezível e infame de provocação política”, alegando que os Estados Unidos “carecem de legitimidade e jurisdição” para avançar com este tipo de acusação, ligada ao abate de duas aeronaves de uma organização anticastrista em 1996.

“É dessa forma que olhamos para a questão, e assim está na declaração do Governo do nosso país. Trata-se de uma escalada na pressão que tenta impor os Estados Unidos sobre Cuba e que vai permitir justificar qualquer ação”, explicou o diplomata.

Saborido Loidi defendeu que Washington procura “reativar propósitos” de hostilidade contra a Revolução Cubana e insistiu que a acusação surge como um “pretexto” para tentar controlar Cuba e mudar o sistema político da ilha. 

Para o embaixador, trata-se de uma violação de direitos e de uma manipulação de factos históricos.

“Não há nenhuma procedência desta acusação”, sustentou o embaixador, acusando os Estados Unidos de instrumentalizarem a justiça e de recorrerem a uma narrativa mediática para legitimar uma eventual agressão contra Cuba.

O diplomata associou o caso à política norte-americana de bloqueio e pressão sobre a ilha, lembrando o agravamento das restrições económicas, comerciais, financeiras e energéticas. 

O embaixador lembrou que Cuba enfrenta há décadas “ações de intimidação e agressão” e que os Estados Unidos estão agora a insistir neste processo como parte de uma estratégia mais ampla. Apesar do tom duro, Saborido Loidi sublinhou que Havana continua disponível para o diálogo. 

“Cuba não negocia sob pressão, mas mantém a sua disposição para negociar em igualdade de condições e sob o respeito de ambos os países”, afirmou o embaixador, insistindo que o seu país “não negocia a soberania e independência” e reafirmando que Cuba quer “um ambiente de paz” e não fecha a porta ao entendimento com Washington.

Sobre a reação da comunidade internacional, o diplomata disse esperar apoio das Nações Unidas e de outros países, incluindo Portugal. 

“O povo português sempre foi solidário com o nosso país”, reconheceu Saborido Loidi, dizendo confiar que essa solidariedade se manterá em relação ao “projeto da revolução cubana”.

Questionado sobre contactos com as autoridades portuguesas, respondeu que ainda não houve qualquer abordagem oficial sobre o assunto.

Saborido Loidi disse ainda acreditar que Cuba está preparada para todos os cenários, incluindo uma eventual escalada militar, embora tenha sublinhado esperar que “o sentido comum” prevaleça e evite qualquer derramamento de sangue.

“Temos sempre estado preparados para enfrentar qualquer tipo de agressão”, declarou Saborido Loidi, afirmando que a história cubana demonstra a capacidade de resistência do país perante pressões externas.

O embaixador concluiu que a posição de Cuba é de firmeza, mas também de abertura à paz e ao direito internacional, defendendo que a resposta à crise deve passar pelo diálogo e pelo fim do bloqueio norte-americano.

 

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