Documentário sobre imigrantes quer humanizar os “números” perdidos na burocracia

Lisboa, 17 mai 2026 (Lusa) – O documentário “Vida de Imigrante” pretende “mostrar uma desumanização dos imigrantes perante o sistema” português, através de histórias reais de brasileiros que aguardam há anos por regularização, perdidos no sistema burocrático numa sociedade que os trata como números.

A iniciativa privada partiu da advogada luso-brasileira Priscila Nazareth Ferreira, carioca de nascença, a residir em Portugal há 10 anos e que já defendeu mais de 13 mil casos de estrangeiros em Portugal, que foi taxativa: “Nós não somos simplesmente números, somos pessoas”.

Ao longo de 50 minutos, o documentário do realizador Paulo Gurgel acompanha sete pessoas afetadas por atrasos burocráticos da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) em processos de residência, de reunião familiar, renovações e autorizações extraviadas, com impacto na saúde, vida académica, profissional e estabilidade familiar.

À Lusa, Priscila Nazareth Ferreira detalhou que o documentário conta histórias de sete imigrantes brasileiros que não vieram de maneira irregular e que “estão em Portugal à espera de renovação de documento, à espera de agendamento de processos altamente qualificados, de enquadramento em situação em que a pessoa tem filhos em Portugal estudando, e tudo isso está dentro de uma mesma estrutura de governabilidade altamente ineficiente”.

Um dos casos relatados diz respeito a uma família do estado brasileiro do Rio Grande do Norte, cujos pais têm residência e trabalham e que não conseguem regularizar a filha de 26 anos com necessidades especiais.

Para além da mãe Silvia Basílio Souto, o documentário aborda ainda as histórias de Amanda Abreu (publicitária e criadora da aplicação Mira Imigrante), Bruna Mallman (analista financeira), Diego Pereira (analista de ‘software’), Ludimila Carvalho (auxiliar de serviços gerais), Luciano Barbosa Sales (representante comercial) e Martiela João Manuel Zua (professora, mas trabalha como cuidadora de idosos por não ter conseguido a residência via CPLP).

“Nenhum desses imigrantes entrou em Portugal de maneira ilegal. Isso é um discurso que se vê na política e quem escuta de fora não consegue compreender que a própria legislação permite uma série de artigos que dispensam o visto prévio, justamente no contexto de reagrupamento”, frisou a advogada luso-brasileira, sublinhando que “uma pessoa que está à espera de agendamento não é ilegal”.

Dessa forma, e perante as dificuldades e entraves dos mais variados aspetos, o documentário quer precisamente “mostrar uma desumanização dos imigrantes perante o sistema”.

Na opinião da advogada, foi o próprio Estado português que promoveu a procura por mão-de-obra. “Portugal não tem números para avançar mais 20 anos de segurança social. Pessoas que começarem a trabalhar agora não garantem uma reforma para daqui a 40 anos. Essa é a verdade”, considerou.

O imigrante, disse, vem a convite do Estado para preencher esses lugares, “mas quando chega aqui recebe uma avalanche de pedras, porque, para a sociedade, ele é o problema”.

“Quando na verdade ele simplesmente é um sintoma, deveria fazer parte da solução (…), mas o Estado não investe na infraestrutura administrativa necessária a abraçar o imigrante tal como a lei prevê”, denunciou, considerando que existe em Portugal uma legislação favorável, mas administração pública ineficiente, “cujo sintoma não está apenas na AIMA, está em vários outros setores da administração portuguesa”, como na saúde, educação, moradia, licenciamentos urbanos.

À acrescentar, Priscila Nazareth Ferreira recordou que os próprios portugueses registam e registaram fortes vagas de emigração, mas que esse sentimento empático parece não estar presente na sociedade.

“Quando você tira de dentro da cultura portuguesa que um dia os portugueses foram essas pessoas, você esquece do seu passado”, disse, recordando a emigração portuguesa em Franca nos anos 60 e 70 do século passado.

“Essas pessoas agora compram imóveis em Portugal à custa desse passado”, acrescentou.

O documentário “Vida de Imigrante” deverá estrear na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre o final de maio e início de junho.

 

MIM // MLL

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