“‘Nakba’ é uma realidade contínua e injusta” – embaixadora palestiniana em Lisboa

Lisboa, 15 mai 2026 (Lusa) — A embaixadora da Palestina em Lisboa afirmou hoje que a ‘Nakba’, termo árabe que significa “catástrofe” e que, entre 1947 e 1949, levou ao êxodo de mais de 750.000 palestinianos, mantém-se como uma “realidade contínua e injusta”.

Rawan Sulaiman discursava na Sala do Senado da Assembleia da República portuguesa numa sessão destinada a “assinalar e lembrar” os 78 anos da expulsão em massa de cerca de 750.000 palestinianos no âmbito da guerra que levou à criação do Estado de Israel.

“A ‘Nakba’ não é somente um evento histórico, confinado ao passado. É uma realidade contínua e injusta. Ela vive em ocupações, ‘checkpoints’, confiscações de terras, colonatos, deslocamento forçado da população e na renúncia diária imposta à liberdade e dignidade dos palestinianos”, sublinhou Sulaiman.

Numa iniciativa promovida pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina, liderado pelo deputado do Livre Jorge Pinto, em que foi apresentado também o documentário “Aida Returns”, da realizadora palestiniana Carol Mansour, Sulaiman lembrou que os seus concidadãos estão a enfrentar “outro capítulo devastador desta catástrofe”.

“Em Gaza, após quase dois anos de genocídio, estamos a testemunhar destruição numa escala que chocou a consciência da humanidade. Famílias inteiras mortas, bairros destruídos, tal como hospitais e escolas destruídos. E há ainda as crianças, com traumas inimagináveis”, explicou a diplomata palestiniana, cuja família foi vítima do Nakba.

“Nesta ocasião solene, a assinalar a ‘Nakba’, eu trago comigo a memória, a dor e a resiliência de uma população que sofreram gerações de exílio e indisposição, mas a dignidade, a identidade e a esperança permanecem inabaláveis.

Sulaiman realçou que estar, hoje, na Assembleia da República Portuguesa, é “muito mais do que um envolvimento diplomático”, é de alguém que se sente uma “refugiada palestiniana de uma cidade histórica, Jaffa, e filha de uma família que foi tratada como animais durante a ‘Nakba’.

“Para mim, isso é profundamente pessoal. A minha família, como mais de 750.000 palestinianos em 1948, foi violentamente mal tratada durante a ‘Nakba’, a catástrofe que destruiu mais de 400 cidades e vizinhos palestinianas e transformou uma inteira nação em refugiados da noitre para o dia”, relatou

“Não partimos por escolha própria, fomos expulsos à força, levando connosco apenas fragmentos de nossas vidas, as chaves das nossas casas, memórias de Jaffa e a persistente esperança de que um dia a justiça prevaleceria. Enquanto crescia, Jaffa nunca foi simplesmente uma história do passado”, acrescentou.

Para a diplomata palestiniana, negar a ‘Nakba’ “não é apenas imoral, é um obstáculo à própria paz”.

“Nenhuma reconciliação pode surgir do apagamento da história de um povo. Reconhecer a ‘Nakba’ não significa reabrir feridas. Significa reconhecer a verdade como fundamento da justiça, da responsabilização e da paz genuína. Quando a justiça é negada, não desaparece. Ela intensifica o sofrimento e leva-nos para mais longe de uma paz justa e duradoura. Se me perguntarem qual é a solução, a minha resposta é clara: não há solução militar para esta realidade injusta”, argumentou.

“E essa realidade são décadas de guerra, ocupação, assalto e violência ou dominação, pelo que se torna necessária uma solução política justa, baseada em leis internacionais e a realização dos direitos legítimos da população palestiniana, incluindo o direito de determinação e solidariedade”, prosseguiu.

Para Sulaiman, o que é necessário hoje “não são mais armas ou mais sofrimento, mas o coragem e o desejo político de escolher justiça, diálogo e humanidade sobre força e dominação”.

A diplomata palestiniana destacou também a “reconciliação histórica de Portugal com o Estado de Palestina”, juntamente com o seu apoio ao direito internacional e os direitos legítimos do povo palestiniano, “que enviam uma mensagem importante num momento em que a credibilidade do sistema internacional está a ser testada”.

Ao abrir a sessão, Jorge Pinto lembrou a “data trágica”, mas também um momento “iniciador de uma luta que perdura até hoje”, apesar do “genocídio” existente atualmente na Palestina, quer na Faixa de Gaza quer na Cisjordânia ocupada, “com ataques cada vez mais violentos de colonos, que contam com o apoio de Israel, e a aprovação do regresso da pena de morte”.

“O Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina estará sempre disponível para ajudar na defesa da dignidade, da vida humana e de uma Palestina livre, para que nunca mais um palestiniano seja obrigado a abandonar a sua terra”, afirmou.

Presentes na sessão estiveram também os deputados Almiro Moreira (PSD), Isabel Moreira (PS), Rui Tavares (Livre), Paula Santos (PCP) e Fabian de Figueiredo (BE), que discursaram, além de representantes do corpo diplomático acreditado em Lisboa.

 

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