Crianças em Macau pensam identidade e liberdade em peça de teatro em português

Macau, China, 14 mai 2026 (Lusa) – Quinze crianças, na maioria chinesas, apresentam no sábado “A Revolta dos Lusecos”, sobre o 25 de abril, numa “lição de cidadania” para os jovens de Macau, “onde as referências históricas são outras”, disse a responsável pela iniciativa.

Uma narradora e 14 atores, dos 4 aos 13 anos e de cinco escolas diferentes de Macau, dão vida à adaptação para teatro da obra de Carlos Alberto Silva “A Revolta dos Lusecos”, numa iniciativa da Sílaba — Associação Educativa e Literária (Sílaba — AEL), que transporta para palco os valores de Abril, numa abordagem pensada para o público infantojuvenil.

“Quisemos integrar a história dando uma lição de cidadania e mostrar que as crianças e jovens não estão fora da história, que podem ter um papel, podem questionar, podem agir. Acreditamos que essa ideia é importante em Macau, onde as referências históricas são outras, este tipo de leitura abre espaço para pensar identidade e liberdade”, disse à Lusa a presidente da Sílaba — AEL, Susana Diniz, responsável pela adaptação do texto.

Entre as crianças – três portuguesas e 12 chinesas – nem todas têm o português como língua materna. Mas aqui quer-se construir algo comum: “Há crianças de diferentes origens linguísticas e culturais a trabalharem em português e a criarem juntas uma peça. Para nós, isso é uma das maiores conquistas”, afirmou.

O que “dá espessura ao uso da língua”, frisou ainda a responsável, não é apenas a aprendizagem de gramática ou vocabulário, mas também da cultura.

Em relação ao trabalho com as crianças, tratou-se de um processo “gradual e cuidadoso”, que, numa primeira fase, passou pela contextualização da “história de forma simples”, ao explicar o que foi o Estado Novo, a falta de liberdades ou a censura.

Num momento seguinte, com a aproximação das crianças às personagens, ajudou-se a que entendessem o que representava o medo, a esperança ou a vontade de mudança. Foi “enriquecedor ver como se apropriaram do tema”, constatou Susana Diniz.

E porquê “A Revolta dos Lusecos”? A obra de Carlos Alberto Silva foi o primeiro livro divulgado, em 2024, pela Dinis Caixapiz, um projeto da Sílaba que envolve a subscrição de uma caixa de livros infantis com uma revista exclusiva.

“Há uma preocupação constante em tornar a aprendizagem mais concreta, mais viva. Quando trabalhamos um livro pensamos sempre no que mais pode nascer dali”, acrescentou.

Na obra de Carlos Alberto Silva apresenta-se um país cinza, dominado pelos “glutões” e onde os “lusecos” vivem oprimidos – até que um dia soldados decidem organizar uma revolta.

“Por um lado, estamos a trabalhar um momento importante da história recente de Portugal, a transição para a democracia, de forma acessível. Por outro, é um tema que cruza o percurso escolar dos alunos e juntar estas duas dimensões — conteúdo e experiência — fez todo o sentido”, ainda de acordo com a presidente da Sílaba, que levou a cabo a encenação, com apoio de outros membros da associação.

A peça, que integra ainda música e imagens projetadas, sobe ao palco no sábado às 18:00 no auditório Stanley Ho, no edifício do Consulado-geral de Portugal em Macau. A entrada é gratuita.

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