Artista português Alexandre Estrela adere ao protesto de hoje na Bienal de Veneza

Veneza, Itália, 08 mai 2026 (Lusa) – O artista Alexandre Estrela anunciou que se associa ao protesto de hoje contra a presença da Rússia e de Israel na Bienal de Arte de Veneza, com suspensão de animações no seu projeto “RedSkyFalls” que é inaugurado no Pavilhão de Portugal.

Numa declaração feita hoje, enviada à agência Lusa, o artista que representa Portugal na 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza recorda que foi um os signatários da carta da Aliança Arte Não Genocídio (ANGA), contra a participação daqueles países no certame, razão pela qual adere à greve de hoje de trabalhadores da cultura, em articulação com sindicatos italianos.

“A coincidência desta data com a abertura do pavilhão [de Portugal] coloca-me numa posição difícil, mas por uma questão de coerência com o que assinei devo ser solidário com esta iniciativa. É importante notar que esta posição não é isolada, outros artistas vão estar alinhados com a greve, no entanto, uma vez que os pavilhões já abriram, o impacto nas exposições será talvez menos visível”, afirma Alexandre Estrela, na declaração.

A plataforma ANGA, composta por centenas de artistas e curadores, tinha convocado uma greve para hoje, em Veneza, iniciativa realizada em parceria com trabalhadores da cultura, diversas associações do setor e o apoio de sindicatos italianos, para exigir o fim da “cumplicidade institucional” da Bienal de Veneza com Estados que alegadamente cometem crimes de guerra.

O protesto é dirigido sobretudo à inclusão de Israel e da Rússia na mostra internacional de arte contemporânea, que reúne, até 22 de novembro, uma centena de pavilhões nacionais, entre eles também do Brasil e de Timor-Leste, no universo lusófono.

Quando o projeto da representação oficial portuguesa foi apresentado publicamente em Lisboa, em março, Alexandre Estrela manifestou-se contra a participação da Rússia e de Israel na mostra, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”. Estrela foi também um dos cerca de 200 signatários da carta aberta da ANGA, enviada à direção da Bienal de Veneza e divulgada na altura.

Na quinta-feira, a Comissão Europeia anunciou que o apoio de dois milhões de euros à Bienal de Veneza será suspenso ou mesmo cancelado se a organização da exposição não esclarecer, até domingo, as dúvidas sobre a participação da Rússia, que só terá o seu pavilhão aberto durante quatro dias e depois exibirá vídeos nas paredes exteriores.

“Iremos suspender ou terminar o contrato” se a organização da Bienal de Veneza não responder “satisfatoriamente” à carta que a Comissão enviou, questionando a reabertura do pavilhão da Rússia no evento, disse na quinta-feira o porta-voz do executivo comunitário, Thomas Regnier, na conferência de imprensa diária.

“Nem um único euro foi para a bienal até agora e isto continuará até termos a garantia de que não houve qualquer violação da subvenção atual”, sublinhou o porta-voz, lembrando que foi enviada, em 10 de abril, uma carta à Bienal alertando para uma possível irregularidade que põe em risco o financiamento de dois milhões de euros de apoio ao evento, com um prazo de resposta até domingo.

Na quarta-feira, em conferência de imprensa, o presidente da Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, rejeitou “posições de exclusão” de participações nacionais na 61.ª exposição internacional, sustentando que aquele organismo italiano “não é um tribunal”, mas “um lugar de paz, de encontro e debate”. 

Na declaração hoje divulgada, Alexandre Estrela diz que, “após reflexão” com a equipa artística, composta por Ana Baliza, Ricardo Nicolau e Marco Bene, foi decidido que, das 10:00 às 22:00 de hoje, “não há encerramento, retirada ou cancelamento [da sua instalação], mas haverá algumas alterações”: “A obra operará numa configuração” diferente, mas toda a equipa estará presente na inauguração.

“RedSkyFalls” estará em “pleno funcionamento físico”, “o sistema operativo continuará em funcionamento, com o ‘desktop’ e a paisagem de fundo a responder, como habitualmente, à atividade sísmica”, mas “as animações serão suspensas, mantendo-se as placas iluminadas com a gravura à vista”, explica o artista, acrescentando que, no sábado, dia de abertura da Bienal ao público, “a obra retomará a sua configuração original e assim permanecerá durante o restante período da exposição, até 22 de novembro”.

“Considero que esta decisão é coerente tanto com a lógica interna de ‘RedSkyFalls’ — que tem a atividade sísmica do planeta e o comportamento de ‘freezing’ (congelamento) como matéria primária —, como com o tema da 61.ª Exposição Internacional, ‘In Minor Keys’, e com a posição pública que assumi ao subscrever a carta da ANGA”, acrescenta o artista.

A obra, que “convida à observação do silencioso jogo da vida, recentra a atenção no particular e nas infraestruturas empáticas entre espécies”, e está instalada no Palacio Fondaco Marcello, no centro histórico de Veneza.

Para a inauguração de hoje, da representação portuguesa, foi anunciada a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e de Américo Rodrigues, diretor da Direção-Geral das Artes (DGArtes), entidade responsável pelo comissariado da obra.

“RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela, é “um ecossistema artificial que responde em tempo real à atividade sísmica global, próxima e distante, com sensibilidade animal”, descreve a DGArtes sobre a peça integrada na Bienal, com curadoria geral de Koyo Kouoh (1967-2025).

“A energia sísmica liga uma rede de Réplicas entre São Francisco, Los Angeles, Lima, Cidade do México e Lisboa, estendendo ‘ReSkyFalls’, em Veneza, a geografias sismicamente ativas, onde as bio-sentinelas respondem à atividade sísmica global e, de forma percetivelmente síncrona, a eventos próximos”, descreve um comunicado da DGArtes.

O projeto reativa as práticas de leitura sísmica baseadas na observação do comportamento animal como preditor de perturbações no mundo natural, e “sempre que, em qualquer parte do mundo, há registo de atividade sísmica acima de 4,5 na escala de Richter, irrompe um rombo sonoro, a paisagem de ‘RedSkyFalls’ muda aceleradamente de estação do ano, as plantas agitam-se e as réplicas congelam de medo”.

Durante os sete meses de exposição em Veneza, o Pavilhão de Portugal promoverá uma série de eventos – conversas, concertos, ‘happenings’, projeções — propondo “uma leitura reverberante da peça”, num programa inspirado no inquérito pombalino após o Terramoto de Lisboa de 1755, dividido em cinco capítulos temáticos.

A 61.ª Bienal de Arte de Veneza abre ao público no sábado com cem pavilhões nacionais, uma exposição geral com 111 participantes, e uma intensa polémica relacionada com a contestação das participações da Rússia e de Israel que levou à demissão do júri internacional que iria atribuir o palmarés, na inauguração. A Exposição Internacional de Arte fica patente até 22 de novembro, data em que serão atribuídos os prémios pelo público, ao contrário da habitual cerimónia de abertura.

A presença de artistas portugueses em Veneza estende-se a eventos paralelos, nomeadamente através da exposição “XIV Steps” (“XIV Passos”), do pintor e escultor Pedro Cabrita Reis, inaugurada na segunda-feira, composta de um conjunto de 14 pinturas inéditas de grandes dimensões que revisitam a Via Sacra, numa “visão pessoal” da Paixão de Cristo, em diálogo com a história da pintura europeia. 

Também a artista Marita Setas Ferro estará presente na exposição coletiva “Personal Structures – Confluences 2026”, organizada pelo European Cultural Centre Italy, a decorrer de 09 de maio a 22 de novembro, em Veneza, com o projeto individual “The Echoes of Things from Nature” (“O eco de coisas da natureza”, em tradução livre), sobre paisagens marinhas e formações orgânicas.

AG (IG/JRS/SS) // MAG

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