
Maputo, 02 mai 2026 (Lusa) — O bispo de Pemba, em Moçambique, disse hoje à Lusa que um grupo de supostos terroristas destruiu completamente a histórica paróquia de São LuÃs de Monfort e raptou civis, na quinta-feira, em Ancuabe, na provÃncia de Cabo Delgado.
“Depois de queimarem algumas casas, maioritariamente dos cristãos católicos e outros também cristãos não católicos, depois de vandalizarem o hospital […], foram direto à s infraestruturas que estão na paróquia de São LuÃs de Monfort de Minhoene e ali destruÃram tudo. Queimaram a escola que está aÃ, queimaram a paróquia, a casa dos padres, a secretaria paroquial, a escolinha foi totalmente vandalizada”, descreveu António Juliasse, a partir de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
O ataque dos supostos rebeldes ocorreu na aldeia de Meza, no distrito de Ancuabe, por volta das 16:00 de quinta-feira, com os grupos a ocuparem a região até à s 20:00 do mesmo dia, avançou o bispo, referindo que houve profanação dos lugares e dos objetos sagrados, numa “violência horrÃvel” e que “provoca muita dor”.
“[A paróquia] está completamente destruÃda. Eles queimaram tudo. Foi mesmo para destruir. É uma forma bárbara de fazer as coisas”, acrescentou Juliasse.
Segundo o bispo, não houve registo de feridos e mortos, mas mais de 20 pessoas foram raptadas pelos rebeldes, num movimento já previsto em Meza, após um ataque numa região próxima, o que levou “boa parte do povo da aldeia a fugir”.
“Cerca de 22 pessoas foram capturadas e foram forçadas a ajudar a destruir, e depois fizeram reunião para espalhar mensagem de ódio contra os cristãos”, disse, lamentando que não tenha havido nenhum socorro, apesar dos rumores que corriam na aldeia dois dias antes do ataque.
“Depois de eles atacarem uma zona perto daÃ, todos sabiam que iam para aqueles lados, mas não houve nenhuma intervenção. Fizeram toda a destruição em três, quatro horas, sem nenhum constrangimento do lado das nossas forças de segurança”, acrescentou o bispo, referindo que “o povo se sente largado” e sem proteção, quando já passam quase “nove anos de guerra, nove anos de destruição e de mortes”.
De acordo com dados avançados pelo representante religioso, pelo menos 300 católicos foram mortos, maioritariamente por decapitação, e mais de 117 unidades da igreja destruÃdas, desde o inÃcio do conflito armado em 2017.
“Basta eles entrarem numa aldeia. Sabemos que a infraestrutura da igreja não fica impune, não fica sem ser destruÃda […]. Nós temos em MocÃmboa da Praia tudo destruÃdo, temos em Nangololo tudo destruÃdo, que são as grandes e antigas igrejas históricas, estão destruÃdas. Agora destruÃram esta igreja também histórica, esta missão histórica, e várias pequenas igrejas e capelas das comunidades cristãs”, concluiu António Juliasse.
A paróquia de São LuÃs de Monfort, construÃda em 1946, é um sÃmbolo da presença católica na região, segundo a fundação portuguesa AIS.
A provÃncia de Cabo Delgado, rica em gás, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, no distrito de MocÃmboa da Praia.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) estima que a provÃncia moçambicana de Cabo Delgado tenha registado 11 eventos violentos nas duas últimas semanas, 10 dos quais envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que fizeram nove mortos, elevando para 6.527 os óbitos desde 2017.
De acordo com o mais recente relatório da ACLED, com dados de 06 a 19 de abril, dos 2.356 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.184 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).
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