
Lisboa, 02 mai 2026 (Lusa) — A Skoola estimula o sonho dos jovens que querem seguir uma carreira na música, num tempo “muito difícil” para novos artistas, reconheceu o rapper Valete, um dos mentores do projeto dirigido à Área Metropolitana de Lisboa.
“Este é o tempo mais difícil de sempre, a internet está congestionada, as editoras apostam cada vez menos em artistas emergentes, mas os miúdos continuam a querer muito ser músicos”, observa Valete, em declarações à Lusa, a meio de uma sessão de mentoria, na sede da associação Skoola, há cinco anos em atividade e há um ano a funcionar na escola Manuel da Maia, em Lisboa.
Entre os cerca de 40 jovens que participam no projeto — conhecidos como “skoolers” — Valete encontrou “músicos excelentes” e “muito empenho”, sendo “que o mais importante é fazer com que ponham cá para fora, falando a nível de letra e a nível de música, aquilo que têm dentro”.
A três semanas de se apresentarem a público, com um espetáculo na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, Valete está a ajudá-los “a construir canções” e a perceber o que é a escrita criativa.
“Também estou a aprender muito”, ressalva.
Afirmando-se como “um rapper social”, Valete procura envolver-se “neste tipo de projetos que têm este cunho social e que trabalham com jovens, alguns jovens que vêm de contextos até muito segregados, precários”.
O rap “vem de um contexto de segregação, de pobreza”, mas “aceita e multiplica-se”, assinala o artista, notando: “A cultura hip-hop é uma cultura de inclusão, creio que a única coisa que o hip-hop não aceita é um discurso de extrema-direita, de resto aceita tudo.”
“A coisa mais bonita que o rap tem hoje é que ele é polivalente, é multidisciplinar e é multidimensional, tens rappers de classe média alta, rappers de classe alta, rappers no Canadá, rappers na Indonésia, rappers no Congo, é uma coisa universal e toda a gente pode fazer e toda a gente tem feito”, destaca.
Valete está a trabalhar uma letra com Kelsen, que veio de Angola há dois anos para Portugal, onde vive com a família e estuda na Manuel da Maia. Dentro da sala, mantém-se nas costas do jovem de 17 anos, ajudando-o a encontrar a rima e a batida.
“Vou pôr [na música] a minha história de vida, o que eu vivi lá, com os meus amigos e as coisas que eu fazia”, explica Kelsen, que, em Luanda, no bairro Nova Vida, ia a festas, cantava em alguns concertos e dançava também.
Tem saudades de Angola, mas Portugal deu-lhe “muitas oportunidades”. Uma delas a de participar na Skoola, que vai dar a conhecer ao público, no dia 23 de maio, um espetáculo original, com encenação de Pedro Coquenão, mais conhecido como Batida, e Daniel Gorjão, que resultará do trabalho desenvolvido ao longo do ano letivo, entre os 40 “skoolers” inscritos e uma equipa alargada de mais de 25 artistas-facilitadores, entre os quais Valete.
“Temos evoluído bastante a nível artístico. Este ano decidimos (…) desenvolver um processo criativo através de módulos, incorporando outras matérias além da música, ou seja, dança, vídeo, improvisação, ‘beatbox’, muita percussão”, explica Mariana Duarte Silva, fundadora e diretora da Skoola.
Equilibrados em género, os “skoolers” são “um grupo diverso”, que integra “jovens de contextos muito diferentes, (…) dos mais vulneráveis aos mais privilegiados”, mas “todos fazem música em conjunto e todos fazem música nova”.
Margarida Coelho, de 24 anos, já está a estudar Jazz e Música Moderna, na Universidade Lusófona, que tem uma parceria com a Skoola.
“Apesar de ter, se calhar, um conhecimento teórico um bocadinho superior, sinto que chego aqui e estou ao mesmo nível de toda a gente, é uma equipa”, constata.
“A palavra que caracteriza mais a Skoola é a partilha, porque qualquer pessoa que aqui entra, seja aprendiz ou professor, orientador, toda a gente vai aprender e ensinar alguma coisa. Torna-se um ambiente muito confortável, onde toda a gente se sente valorizada. E, portanto, é muito especial nesse sentido”, reflete.
Além disso, destaca, na Skoola não se estudam instrumentos ou teoria musical, mas “noções musicais” que acabarão por “dar a todos os alunos (…) mais uma forma de comunicação, que é a expressão musical”. E isso, garante, “terá um impacto super positivo a nível social de todos estes jovens”.
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