Ativistas denunciam “Estado securitário” em Angola que transforma vidas “num inferno”

Luanda, 29 abr 2026 (Lusa) — Ativistas angolanos disseram hoje que existe em Angola um “Estado securitário” que tem transformado as suas vidas “num inferno”, denunciaram “contínuas detenções arbitrárias” e exigiram a libertação dos ativistas “presos políticos” há nove meses.

A “indignação” dos ativistas e jovens de partidos políticos na oposição diante do “crescente cerceamento” do exercício das liberdades fundamentais, como direito de reunião e de manifestação em Angola, vem expressa num manifesto coletivo apresentado hoje, em conferência de imprensa, em Luanda.

Repudiaram “com veemência” a condenação do ativista Osvaldo Caholo — condenado na segunda-feira a dois anos e seis meses de prisão efetiva por instigação pública ao crime –, considerando que a decisão judicial “é mais um triste exemplo de criminalização dos defensores dos direitos humanos e da tentativa de silenciar vozes críticas em Angola”.

“A acusação de instigação pública ao crime é uma clara tentativa de desvirtuar o direito à liberdade de expressão e de manifestação, consagrados na Constituição da República de Angola (CRA) e em diversos instrumentos internacionais de direitos humanos”, afirmou a ativista e secretária de comunicação da juventude do Bloco Democrático (BD, oposição), Ana Filinga.

Neste manifesto, os movimentos cívicos e políticos consideram que as prisões dos ativistas André Miranda, Serrote de Oliveira “Genera Nila” e Osvaldo Caholo — todos detidos em julho de 2025 na sequência da greve dos taxistas — “é uma declaração inequívoca e clara de ditadura e de um Estado securitário”.

A detenção destes três ativistas “é um ato político visando intimidar e dissuadir outros cidadãos de exercerem os seus direitos cívicos, como o direito à manifestação”, referiu a ativista, que exigiu a “imediata libertação de todos os presos políticos”.

Adilson Manuel, também ativista ligado ao BD, denunciou a existência de um sistema contínuo de pressão e detenções de ativistas em Angola, “muitas delas injustificadas”, e previu que a repressão a manifestações de rua contra as políticas governamentais deve crescer, tendo em vista ao ano eleitoral (2027).

“Mas, a pressão para a libertação de ativistas presos políticos vai continuar”, assegurou.

Para Adilson Manuel, o “Estado securitário” que existe em Angola tem tornado a vida dos ativistas “num inferno, tem dificultado as ações daqueles que são os agentes de mudança em Angola”.

“O nosso dever é continuar a lutar, mas também mostrar outros métodos de ação, daí que as manifestações de rua frearam, o que é um mal, porque temos fome e pobreza, porque as populações estão frustradas, os jovens estão frustrados, [o] que pode descambar para uma insurreição popular, o que não queremos (…)”, declarou.

O respeito irrestrito às liberdades de expressão, reunião e manifestação, sem perseguições ou criminalização, o fim da repressão contra ativistas e a garantia de um sistema judicial independente e imparcial constam ainda das exigências dos ativistas.

Matulonga César, membro da Sociedade Civil Contestatária, lamentou a “violação sistemática” dos direitos fundamentais, sobretudo de vozes críticas à governação, e denunciou “vícios judiciais” em casos que envolvem ativistas.

“O que assistimos no dia 27 de abril [dia da condenação de Osvaldo Caholo] foi o que denominamos os vícios judiciais, já não se pode ir a um tribunal com rótulo de ativista, é proibido ir a um tribunal deste país sendo ativista”, afirmou.

O ativista Adolfo Campos defendeu “união e ações conjuntas” dos cidadãos para “afastar o MPLA” (partido no poder desde 1975) da governação do país: “Não podemos esperar as eleições [em 2027], porque elas são uma farsa (…). O povo precisa de se levantar para retirar o MPLA [do poder], por ser o cancro dos nossos problemas”.

Adolfo criticou os partidos políticos na oposição que, referiu, “se limitam apenas em fazer notas de repúdio quando são detidos ativistas” e “não avançam para ações concretas” na sua defesa.

DAS // MLL

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