
Lisboa, 29 abr 2026 (Lusa) – A adaptação teatral de “Clube dos Poetas Mortos”, que já vendeu mais de 28 mil bilhetes antes da estreia, nesta quinta-feira, no Teatro da Trindade, em Lisboa, recupera uma “mensagem ainda necessária”, num tempo ameaçado por “retrocessos”.
O espetáculo, encenado por Hélder Gamboa e protagonizado por Diogo Infante no papel do professor John Keating, chega a Portugal depois de apresentações nos Estados Unidos, onde se estreou em 2016 pela Classic Stage Company, e em Paris, sendo esta a terceira encenação internacional da obra.
Apesar de a estreia estar marcada para dia 30 de abril, o espetáculo vive momentos de sucesso antecipado, tendo esgotado praticamente todas as sessões inicialmente previstas, até início de agosto, levando a organização a prolongá-lo até 20 de dezembro, antes de partir depois em digressão pelo país, revelou o encenador aos jornalistas, após um ensaio de imprensa.
O espetáculo nasce da adaptação do argumento do filme “Clube dos Poetas Mortos” (1989) pelo próprio autor, Tom Schulman, vencedor do Óscar de melhor argumento original, mantendo a história ambientada em 1959, num colégio interno masculino, marcado por um ensino rígido e espartilhado, assente nos quatro pilares da “tradição, disciplina, honra e excelência”.
O Colégio Welton, dirigido pelo professor Nolan, interpretado por Virgílio Castelo, vê os seus alicerces abalados pela chegada de um novo professor carismático, a quem todos chamariam “Oh captain, my captain”, que desafia os alunos a questionarem as normas, a desenvolverem espírito crítico, a afirmarem a sua individualidade e a aproveitarem a vida, sob o lema “carpe diem”.
No final do ensaio, Hélder Gamboa, de lágrimas nos olhos, confessou que, por mais vezes que veja, não consegue conter a emoção, tal como a sentiu da primeira vez que viu o filme, ainda adolescente.
“Lembro-me do que estava a fazer, onde estava, com quem estava quando vi o filme pela primeira vez, com 17 anos. Marcou-me logo ali. E agora, quase todos os dias, nos ensaios, eu fico comovido ao ver os atores viverem esta história. Emociona-me muito”, disse, admitindo que essa emoção está ligada às suas próprias memórias de juventude, vividas na praia de Carcavelos.
O encenador recordou que já não via o filme há muito tempo e que pediu especificamente a toda a equipa técnica que não o visse agora, para as influências cinematográficas não se imporem na produção do espetáculo.
Quanto à peça, viu-a em Paris, depois de ter lido o texto, mas, mesmo sem querer, há pontos que vai buscar ao filme, porque “está muito presente na memória” coletiva.
Hélder Gamboa revelou também que “há uma pequena coisa” que o “está a fascinar”, que é o interesse demonstrado por algumas pessoas em levar a esta peça netos ou filhos que nunca viram o filme, para conhecerem a história contada pela primeira vez num palco e em português.
O teatro impõe uma abordagem diferente do cinema, que é “mais fácil”, porque tem a possibilidade de centrar uma determinada imagem num grande plano, que todos os espectadores veem, explicou.
“Aqui temos que mostrar tudo. A mensagem tem que ser diferente. Por aí é que vamos fugindo ao filme. A história tem que ser contada de outra maneira”.
Uma das opções seguidas por Hélder Gamboa foi a de concentrar a ação num único espaço cénico, que é a biblioteca, onde quase tudo acontece: as aulas, as conversas com o diretor, as cenas que no filme se passam no recreio ou nos quartos.
As exceções são a gruta, onde se reúne o clube dos poetas mortos, construída através de ausência de cenário e de luz, com apenas uma rocha na qual os alunos se sentam, iluminados pelas suas lanternas, e a peça de teatro em que a personagem de Neil Perry entra.
As atuações estendem-se ao espaço do público, desde logo, no início, com os alunos a entrarem perfilados, pelo corredor entre as cadeiras da plateia, ostentando os estandartes com o brasão do colégio e tocando gaita-de-foles, que, segundo o encenador, os jovens atores aprenderam a tocar especificamente para o espetáculo.
Também na cena do teatro dentro do teatro, quando Neil Perry interpreta “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, os colegas sentam-se entre o público, simulando estarem eles próprios na plateia a assistir ao espetáculo.
Sobre o elenco, composto por atores como Dany Duarte, Diogo Fernandes, Diogo Mesquita, Jaime Pinto Gamboa, João Maria Cardoso, João Sá Nogueira, Nuno Represas, Rafael Leitão e Rui Pedro Silva, o encenador contou que foram selecionados através de ‘casting’ e que, “de repente, as peças encaixaram e eles são perfeitos para o que estão a fazer”, elogiando o trabalho coletivo.
“Foi tão bonito o casamento entre este grupo de 11 atores. Os ensaios foram maravilhosos, foram positivos o tempo todo”, afirmou Hélder Gamboa, enaltecendo também o contributo de Diogo Infante, que descreve como “maravilhoso”, não só como ator, mas também pela sua capacidade de “ver para lá daquilo” que ele próprio “estava a querer ver”.
Quanto à escolha do protagonista, não houve dúvidas, nem “plano B”: “Quando se vê este Keating, não há capitão como o Diogo. (…) Aqui é o Diogo e ponto.”
O encenador considerou ainda que a peça pode ter impacto junto de diferentes gerações, num contexto contemporâneo marcado pelas tecnologias.
“Apesar de vivermos num mundo global, estamos mais fechados na nossa máquina”, afirmou, defendendo a importância de relações humanas e das experiências partilhadas.
Também Diogo Infante sublinhou a atualidade da mensagem da história, considerando que “o que é estranho é pensar que hoje em dia continua a ser necessária”, num contexto de “outras revoluções e outras guerras” e possíveis “retrocessos do ponto de vista das conquistas dos direitos”.
Para o ator, é essencial que “as novas gerações possam ouvir estas palavras e perceber que a sua identidade, a sua individualidade não pode nem deve ser posta em causa por ninguém”, defendeu.
Na sua perspetiva, a forte procura pelo espetáculo é explicada pela “memória afetiva do filme, de uma determinada geração”, mas também pela “urgência em experienciar coisas físicas ao vivo, numa época digital”.
O ator relacionou ainda a história com o passado português, na medida em que apela à memória “de um período em que vivíamos em ditadura”, destacando o contraste entre a repressão e a figura inspiradora do professor Keating.
Diogo Infante assume como um desafio interpretar uma personagem imortalizada por “um ator tão icónico como Robin Williams” no cinema, com quem “é impossível competir” ou sequer aproximar-se.
“Eu nem me proponho, acho que tenho que me reduzir à minha humildade e dar o máximo de mim neste palco, é isso que me interessa”, afirmou, salientando que o seu objetivo é “honrar o texto” e não a interpretação original.
O espetáculo “Clube dos Poetas Mortos” contará com a presença de Tom Schulman na estreia, e ficará em cena na Sala Carmen Dolores, de quarta-feira a sábado às 21:00, e aos domingos, às 16:30, incluindo uma sessão com conversa com o público marcada para 10 de maio.
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