
Paris, 21 abr 2026 (Lusa) — A UNESCO defende que metade dos seus sítios mais ameaçados, incluindo florestas, glaciares e ilhas, poderão ser salvos de danos irreversíveis se a comunidade internacional conseguir impedir que o aquecimento global ultrapasse 1.°C até 2050.
O relatório “Comunidades e Natureza em Sítios da UNESCO: Contribuições Locais e Globais”, publicado hoje, analisa, pela primeira vez, todas as categorias de sítios protegidos pela UNESCO: Sítios do Património Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Globais.
Estes sítios abrangem mais de 13 milhões de quilómetros quadrados distribuídos por 2.260 áreas, uma área maior do que a China e a Índia juntas.
Segundo os autores do relatório, “uma diferença mínima de temperatura pode levar a um aumento incrível dos riscos”, aludindo a uma eventual subida da temperatura global em mais de 1.°C até 2050.
“Limitar as emissões de gases com efeito de estufa é agora crucial. Por cada grau que evitemos, poderíamos reduzir para metade o número de sítios que ultrapassam os pontos de inflexão críticos”, disse Martin Delaroche, especialista ambiental da UNESCO.
Atualmente, um em cada quatro sítios Património Mundial da UNESCO pode atingir pontos de inflexão (que ocorrem quando os danos se tornam irreversíveis) e sofrer alterações significativas já em 2050.
Se estas alterações ocorrerem, estima-se que, até 2050, “os glaciares terão desaparecido completamente num terço dos sítios da UNESCO que os albergam”, incluindo todos os três glaciares do continente africano (Monte Quénia, Monte Kilimanjaro e Montanhas Rwenzori).
Além disso, segundo Delaroche, o aquecimento das águas provocará “branqueamentos de corais em grande escala” — o que poderá levar a uma redução desta espécie marinha crucial — bem como “stress hídrico crónico” que alteraria as funções das florestas.
Quase 900 milhões de pessoas vivem atualmente em áreas protegidas, representando 10% da população mundial, estando documentadas mais de 1.000 línguas.
Esta riqueza cultural deve-se ao facto de 25% dos sítios da UNESCO incluírem territórios de povos indígenas, número que chega a quase 50% em África, nas Caraíbas e na América Latina.
Tales Carvalho Resende, coautor do relatório, destacou o papel dos povos indígenas na preservação do património e afirmou que os sítios designados pela UNESCO são “exemplos muito poderosos de resiliência”.
“Podemos ver isto em locais como o Grande Canal da China, que reflete séculos de engenho humano ligando rios e moldando paisagens inteiras para sustentar sociedades e economias (…). Outro exemplo é o Vale de Tehuacán-Cuicatlán, no México, onde as comunidades ainda utilizam sistemas agrícolas desenvolvidos há milhares de anos”, observou o especialista em património da UNESCO.
O relatório alerta que 98% dos sítios designados já sofreram pelo menos um risco relacionado com o clima desde 2000. Ao mesmo tempo, o número de sítios afetados por estes riscos — como secas, inundações, branqueamento de corais e incêndios — aumentou 40% na última década.
Entre as espécies emblemáticas preservadas pelos sítios designados pela UNESCO, destaca-se a proteção de até um terço dos elefantes, tigres e pandas restantes no mundo, bem como de pelo menos um em cada 10 grandes símios, girafas, leões, dugongos e rinocerontes.
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