Médicos lusófonos querem mais divulgação pública da doença falciforme

Díli, 04 abr 2026 (Lusa) — A Aliança Lusófona de Especialistas para a Doença Falciforme (Alua) defendeu, em Díli, uma maior divulgação pública daquela doença principalmente em Portugal, onde os casos aumentaram nos últimos anos.

“Os números que foram publicados no ano passado dizem que uma em cada 1.000 crianças da região de Lisboa já nasce com a doença falciforme e duas em cada dois mil nascimentos no resto do país. Isto significa que não é uma doença rara”, disse à Lusa o médico Guilherme Queiroz, da Alua.

A doença falciforme, que já pode ser detetada através do teste do pezinho, é uma doença de sangue, genética, que se carateriza por uma alteração ao glóbulo vermelho, que fica com a forma de uma foice, dificultando a circulação sanguínea e que provoca dores intensas, anemia e danos nos órgãos.

“É uma doença cada vez mais frequente em Portugal, mas também em outros países, devido ao aumento das taxas de natalidade, por exemplo nos PALOP, [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa], e a que tem de se dar visibilidade para dar a melhor condição de vida às crianças e, felizmente, também a adultos”, salientou.

A doença não tem cura, mas segundo médico português, se as pessoas forem tratadas desde a primeira idade podem ter uma esperança média de vida semelhante à de um adulto normal.

Originária do continente africano, a doença pode ser encontrada no continente americano, principalmente no Brasil, na Índia e também na Europa.

Guilherme Queiroz, pesquisador do ISGlobal, da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona) e do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra, explicou também que a Alua foi criada porque a doença falciforme é “muito negligenciada”.

“A famosa revista Lancet, há dois anos, publicou um artigo a dizer que era a doença global mais negligenciada”, salientou.

Segundo o médico, aquilo acontece, primeiro porque é uma doença genética e por isso não é contagiosa ou transmissível e depois porque é caraterística de uma população pouco visível, que é a “população afrodescendente ou africana”.

“Isto faz com que as políticas públicas dirigidas à doença falciforme, ainda que não seja neste momento uma doença rara, ainda que haja globalmente meio milhão de crianças a nascerem todos os anos com a doença, seja completamente insuficiente, quando comparadas a doenças que não têm este impacto”, disse.

“Se estivermos a falar de meio milhão de crianças a nascerem por ano no mundo com esta doença, se 80 por cento ou 90 por cento morrerem, estamos a falar da morte de quase meio milhão de crianças todos os anos”, destacou Guilherme Queiroz.

Outra razão para o surgimento da Alua é a criação de conteúdos científicos sobre a doença em língua portuguesa e a pesquisa sobre a doença em todos os continentes.

Fundada em 2023, a Alua visa promover o conhecimento técnico e científico para fortalecer o diagnóstico, o tratamento e o cuidado integral das pessoas com doença falciforme na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

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