Índice mostra que consumo essencial supera salário mínimo em Cabo Verde

Praia, 30 mar 2026 (Lusa) — O custo do consumo essencial em Cabo Verde supera o salário mínimo nacional, segundo dados hoje divulgados pela Associação para a Defesa do Consumidor (Adeco), que aponta disparidades entre ilhas e rendimentos insuficientes para assegurar essas despesas.

“Há uma disparidade na necessidade de consumo essencial entre as diferentes ilhas, tendo em conta os fatores como a comunicação, habitação, alimentação, eletricidade e gás que compõem o índice”, mas no geral, os dados indicam que “existe um défice de rendimento no país para assegurar o consumo essencial das famílias”, afirmou o presidente da ADECO, Nelson Faria, numa conferência de imprensa na ilha de São Vicente.

A associação atualizou o Índice de Consumo Essencial (ICE) em São Vicente e no Sal, tendo agora alargado a análise à capital cabo-verdiana, na ilha de Santiago, a mais populosa do país.

Em São Vicente, a segunda ilha mais populosa, o índice situa-se em 24.856 escudos (225 euros) por pessoa, registando um aumento de 1,7% face à última atualização.

Já no Sal, principal destino turístico do país, o valor sobe para 34.909 escudos (316 euros), enquanto na cidade da Praia, recentemente incluída na monitorização, o indicador fixou-se em 33.156 escudos (300 euros) em março, uma ligeira descida de 0,9% face a janeiro, quando se iniciou a monitorização.

Os dados evidenciam ainda que a alimentação é a componente que mais pesa no orçamento das famílias, aproximando-se ou mesmo ultrapassando o salário mínimo nacional.

No Sal, por exemplo, o custo médio mensal da alimentação ronda os 18.240 escudos (165 euros), enquanto em São Vicente é de cerca de 15.188 escudos (138 euros) e na Praia de 15.237 escudos.

Atualmente, o salário mínimo nacional é de 17 mil escudos (154 euros) no setor privado e 19 mil escudos (172 euros) na administração pública.

Neste contexto, o presidente da ADECO defende a adoção de medidas para adequar os rendimentos ao custo de vida, de forma a garantir o acesso ao consumo essencial, alertando para a discrepância entre salários e despesas.

A associação considerou que a situação traduz um défice de rendimento que compromete a capacidade das famílias de satisfazerem as suas necessidades básicas, defendendo medidas estruturais, incluindo a revisão dos salários e políticas de ajustamento à inflação.

“Nós apelamos que seja definido um salário mínimo que se aproxime das necessidades de consumo essencial e que tenha também uma perspetiva de adequação face à inflação. Nos últimos cinco anos, até 2025, houve uma perda de poder de compra das famílias na ordem dos 15%. Não tivemos aumentos de rendimento nesse sentido”, referiu.

Além disso, “podemos ter nova pressão inflacionista, decorrente da guerra no Médio Oriente. Serão necessárias medidas para garantir que os consumidores tenham um poder de compra mínimo para as suas necessidades essenciais”, afirmou.

O índice agora divulgado deverá ser alargado a outras regiões do país.

O Governo anunciou em janeiro a criação de uma comissão tripartida para preparar o aumento do salário mínimo nacional para 25 mil escudos (226 euros) até 2027, envolvendo sindicatos e outras instituições, incluindo municípios.

 

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