
Maputo, 30 mar 2026 (Lusa) — O bairro da Mafalala, em Maputo, quer resgatar o legado de Noémia de Sousa, à passagem do centenário do nascimento da escritora, reforçando a memória coletiva e levando às novas gerações à “mãe dos poetas moçambicanos”.
“Temos programado uma série de eventos associados aos 100 anos da Noémia de Sousa que passam pela realização de várias atividades culturais”, disse, em entrevista à Lusa, o diretor do Museu Mafalala, Ivan Laranjeira, sublinhando que o objetivo é devolver a poetisa ao espaço público do bairro onde viveu e escreveu alguns dos seus poemas mais emblemáticos.
Reforçar a identidade cultural da Mafalala, recuperando a memória de uma geração de jovens intelectuais que, nas décadas de 1940 e 1950, transformaram o bairro num dos principais polos de afirmação cultural e política do país, estão igualmente entre os objetivos.
Entre as memórias a resgatar está a de Noémia de Sousa (20 setembro de 1926 – 04 dezembro de 2002), escritora “muito pouco conhecida”, sobretudo entre o público mais novo, mas que teve impacto na afirmação da identidade africana e na luta cultural anticolonial, segundo o responsável.
A iniciativa, que promove um conjunto de atividades culturais para celebrar o centenário da autora, é coordenada pelo Museu Mafalala, que preparou uma agenda mensal ao longo de 2026, culminando em setembro, mês em que a escritora celebraria o centenário.
O programa arrancou com a exibição do filme “Mafalala Blues”, realizado por uma sobrinha-neta da autora, Camila de Sousa, rodado no próprio bairro e centrado na vida e obra da poetisa, numa iniciativa que envolveu familiares e moradores. Seguem-se tertúlias literárias, saraus culturais, exposições temáticas e a renovação do mural dos poetas moçambicanos, onde a escritora ocupa lugar de destaque ao lado de José Craveirinha.
“Temos dois poemas representados na nossa exposição, ‘Magaíça’ e ‘Súplica’, que são também poemas riquíssimos e que refletem aquilo que é a Noémia”, refere o diretor do museu, manifestando expetativa de uma adesão “bastante satisfatória” do público, sobretudo crianças.
No Museu Mafalala, a preservação do legado, nome e obra da poetisa já começou com a instalação da biblioteca Noémia de Sousa, onde decorrem atividades pedagógicas dirigidas a crianças e adolescentes, bem como ações associadas a datas simbólicas de Moçambique.
“Colocar a Noémia como figura de cartaz na nossa programação, falar mais sobre a Noémia, dar entrevistas sobre a Noémia, contribui sem dúvida para que as pessoas despertem e conheçam, ficam curiosas, queiram ler a sua poesia, queiram visitar o lugar onde ela nasceu e aquilo que a inspirava”, afirma Ivan Laranjeira, que a considera a “mãe dos poetas moçambicanos”.
Na década de 1940, Noémia de Sousa viveu numa casa de madeira e zinco na Mafalala, onde escreveu poemas como “Deixa passar o meu povo”, tornando-se referência do nacionalismo cultural africano. Saiu do bairro em 1949 por motivos políticos e viveu grande parte da vida no exílio.
Iniciou-se no jornalismo em 1956 e, após a independência, regressou a Lisboa em 1975, onde trabalhou na área noticiosa, incluindo na agência Lusa. Faleceu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal, deixando como obra de referência “Sangue Negro”.
A casa na Mafalala onde viveu continua a despertar interesse. Nela vive Mommed Saulo, carpinteiro de 30 anos, com a companheira e dois filhos.
À Lusa conta que visitantes “costumam estar ali no portão”, a pedir para fotografar e visitar o espaço, embora o acesso ao interior seja condicionado. Admite não conhecer em profundidade a figura da “Noémia da Sousa”, como lhe chama, realidade que, de resto, o museu considera reveladora do défice de conhecimento ainda existente no próprio bairro, mas que o centenário pode ajudar a inverter.
Para a família, o centenário assume um significado particular. Aguida Caliano da Silva, de 86 anos, que casou com o irmão da poetisa, recorda uma infância partilhada no mesmo bairro, marcada por encontros literários e pelo ambiente político da época colonial, mas lamenta que o país nunca se lembre da cunhada.
“Quando ouvi pela primeira vez na televisão que iam fazer o centenário da Noémia fiquei muito feliz. Lembraram-se dela, nunca se lembram dela”, lamenta, defendendo que a valorização da poetisa deve servir para fortalecer a educação e a consciência cívica no país, como Noémia desenvolveu a sua.
“A Noémia, com a sua literatura, ajudou-nos a desenvolver também as nossas consciências”, considera, evocando as reuniões de jovens escritores em casas da Mafalala, onde também participava José Craveirinha e outros intelectuais.
A antiga residência da família mantém-se preservada por decisão dos herdeiros, apesar de um incêndio, ocorrido entre 2003 e 2004, ter destruído parte significativa de uma biblioteca com exemplares raros, alguns datados do século XIX. Parte dos livros queimados permanece guardada, e a família admite procurar especialistas para eventual recuperação.
Entre memórias de um bairro que acolheu figuras como o histórico Presidente moçambicano Samora Machel (1933-1986) e o antigo Presidente Joaquim Chissano, de bibliotecas familiares destruídas por incêndios, de casas e ruas que permanecem como marcos silenciosos da história, a Mafalala procura afirmar-se como espaço de memória viva.
No centenário de Noémia de Sousa, o bairro não celebra apenas uma poetisa, mas revisita uma parte decisiva da sua própria identidade cultural e política, num esforço de preservação histórica que pretende projetar a autora como símbolo de resistência, educação e consciência nacional.
“Com a fundação do Museu Mafalala, as coisas talvez tenham tomado um outro rumo [porque] já divulga mais a história, já divulga mais os problemas do bairro, as pessoas já estão um pouco mais conscientes daquilo que o bairro é e foi, e a Noémia é uma das que é sempre idolatrada pelo Museu, como Craveirinha e outros tantos”, conclui, com um sorriso, a cunhada de Noémia de Sousa.
*** Egídio Mazuze (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***
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