
Maputo, 26 mar 2026 (Lusa) – O Governo moçambicano manifestou hoje a intenção de integrar a Inteligência Artificial (IA) no sistema do ensino técnico profissional, referindo que o processo deve ser feito de forma gradual, estruturada e alinhada com a realidade nacional.
“Não se trata apenas de introduzir novas disciplinas, mas de promover uma mudança de paradigma, procurando competências digitais para (…) os cursos já existentes, o que inclui matérias como programação, automação, análise de dados e a manutenção do sistema de dados”, disse o secretário de Estado da Ciência e do Ensino Superior, Edson Macuácua, na abertura de Seminário sobre Inteligência Artificial e Transformação Educativa, em Maputo.
No evento, que reuniu académicos nacionais e de algumas universidades portuguesas, o responsável referiu que a transformação do sistema de ensino não pode ser feita de forma abrupta, mas requer uma abordagem colaborativa e sustentável, envolvendo o Governo, as instituições de ensino, o setor privado e os parceiros.
Para isso, defendeu, o país está a atualizar os referenciais curriculares para a introdução de conteúdos ligados à transformação digital, assegurando que os jovens não sejam apenas utilizadores passivos de tecnologia, mas profissionais capazes de compreender e adotar soluções tecnológicas ajustadas à realidade e ao contexto do país.
“Importa sublinhar que a integração da inteligência artificial no ecossistema do ensino técnico profissional é um objetivo e deve ser feito de forma gradual, estruturada e alinhada com a realidade moçambicana”, frisou o secretário de Estado.
O responsável avançou que, para os próximos anos, Moçambique deverá priorizar habilidades e potenciais básicos, entre as quais a literacia digital avançada, competências técnicas especializadas no alinhamento, em programação, automação artificial, análise de dados e cibersegurança e competências transversais como pensamento crítico, resolução de problemas e a ética digital porque “a inteligência artificial, mais do que capacidade técnica, exige também uma responsabilidade”.
“Estamos conscientes de que este caminho nos dá exemplo de desafios. Persistem limitações ao nível das infraestruturas, da capacidade dos trabalhadores e do recurso disponível, no entanto, existe uma clara vontade política do Governo de avançar (…). Hoje acreditamos que o nosso país poderá não apenas acompanhar esta transformação global, mas posicionar-se como um país capaz de desenvolver talentos e liderar soluções inovadoras no contexto africano”, disse o secretário de Estado.
Paulo Serra, professor albicastrense e Assistente Convidado no Instituto Politécnico de Castelo Branco, um dos palestrantes do seminário, disse à Lusa, à margem do evento, que como vários países, Moçambique enfrenta agora o desafio de criar um ambiente integrado e inclusivo para o desenvolvimento da IA.
“A transformação tem de ser de acordo com a cultura, não há uma transformação igual. Nós depois podemos é fazer adaptações de acordo com a cultura, de acordo com a visão do povo, porque não podemos dizer que se os suecos acham que deve ser de forma A, viram o povo de Moçambique e dizem agora tens de ser de forma A”, explicou.
Para o académico português, as assimetrias sociais e a questão das infraestruturas são também pontos a se considerar no processo de desenvolvimento das tecnologias no país, para que a inteligência artificial beneficie a todos.
Segundo Serra, a aposta na juventude pode permitir que Moçambique dê um “salto qualitativo” no uso dessas tecnologias porque “é algo que muitos países não têm”.
LCE // ANP
Lusa/Fim
