
Lisboa, 25 mar 2026 (Lusa) – A subsecretária-geral das Nações Unidas para as Comunicações Globais manifesta enorme preocupação, em entrevista à Lusa, sobre o ambiente de informação que existe, considerando-o tóxico, e a saúde mental das crianças ligado às redes sociais.
“Estou profundamente preocupada com o nosso ambiente informacional. Ele é tóxico e está a ter um impacto assustador na nossa saúde social, na nossa saúde mental e até mesmo na nossa saúde física”, aponta Melissa Fleming, oradora do TEDxPorto 2026 – (In)visível, que se realiza no sábado na Alfândega do Porto.
No que diz respeito à saúde da sociedade, “vimos como isso incendiou as democracias – estou a falar especificamente das redes sociais”, sublinha a subsecretária-geral das Nações Unidas.
“Estamos a ver a desinformação a dominar porque é usada como arma e os algoritmos são desenhados de forma a favorecer conteúdo inflamatório, o tipo de conteúdo que incita o ódio e provoca indignação”, prossegue.
Além disso, também se assiste a “um grande número de políticos, especialmente mulheres, a serem intimidadas”, sendo alvo de ‘deepfakes’ sexualizadas gerados por inteligência artificial (IA), com ameaças de morte e de violação, numa tentativa de silenciá-las.
Isto está “a fragmentar a confiança das pessoas em todo o sistema democrático”, enfatiza.
“Não se trata apenas desses ataques aos políticos, mas também das câmaras de eco em que o ambiente das redes sociais coloca as pessoas”, onde continuam a receber certo de conteúdos que, talvez, tenham clicado uma vez, mas recebem “cada vez mais”, o que “é muito polarizador”, diz.
De uma perspetiva da ONU, o nosso ambiente de informação é extremamente perigoso em países frágeis”, considera Melissa Fleming.
As redes sociais são também usadas como arma contra grupos minoritários, como o exemplo do que aconteceu com os refugiados rohingya, em que o Facebook desempenhou um papel determinante no discurso de ódio que proliferou na região.
“Esse foi um exemplo muito marcante, mas estamos a ver isso a ser replicado em todo o mundo”, adverte.
Com a IA generativa, “as coisas só vão piorar”, aliás, “já estão a piorar porque é mais fácil segmentar, mais barato produzir conteúdo fácil e criar ‘bots’ que inundam a plataforma”, evidencia.
“É uma área que nos alarma particularmente, e os escritórios da ONU em todo o mundo estão a expressar preocupação com o quão perigoso e tóxico o ambiente de informação se tornou, o que torna muito mais difícil para a ONU realizar o seu trabalho, que é promover a democracia, a paz e a unidade”, refere.
Outra área “extremamente preocupante” é a saúde mental de crianças e jovens: “desde que as redes sociais existem, estudo após estudo tem mostrado que a saúde mental dos jovens continua a piorar e eles correlacionam isso diretamente com o tempo gasto nas redes sociais”.
Na sua apresentação, Melissa Fleming vai usar o exemplo da adolescente de 14 anos Molly Russell, que foi “basicamente instruída a se matar” pelo mundo ‘online’ que acedia sem conhecimento dos pais ou amigos, com publicações que “romantizavam o suicídio e a desencorajavam a buscar ajuda humana”.
Como afirmou o seu pai: “O Instagram ajudou a matar minha filha”.
Aliás, “existem vários exemplos em todo o mundo e esses pais estão a tentar obter leis mais rigorosas”, o Reino Unido tem uma lei de segurança ‘online’, a Austrália restringiu o uso das redes sociais a menores de 16 anos e muitos países europeus estão a considerar situações semelhantes, tal como Portugal.
“E há um processo judicial na Califórnia contra os criadores de conteúdo para redes sociais, alegando que estão a viciar as crianças de forma consciente”, aponta Melissa Fleming.
Num mundo tecnológico cada vez mais acelerado, as “empresas de redes sociais pioraram”, reduzindo as suas equipas de confiança e segurança, enquanto “agora temos a IA generativa, à qual crianças e todos recorremos em buscas de informações, muitas das quais distorcidas, mas ainda pior, estes companheiros ou treinadores de IA estão, na verdade, a promover” comportamentos autolesivos.
Aliás, “há muitos casos de como ‘chatbots’ de IA encorajaram jovens a tirar a própria vida” e até escrever cartas de suicídio.
“Não há mecanismos de proteção” e, usando o exemplo das crianças, que “são os membros mais preciosos da nossa sociedade”, foram colocadas restrições a outros produtos para protegê-las, “e não restringirmos provavelmente o produto mais perigoso, que são as redes sociais, agora IA generativa”, lamenta.
*** Por Alexandra Luís, da agência Lusa ***
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