
Lisboa, 25 mar 2026 (Lusa) — O título do novo álbum João Afonso, “Todo Tempo”, a sair na sexta-feira, tem origem num poema de António Gedeão, incluído no alinhamento, que realça a importância da poesia no atual tempo de guerra, segundo o músico.
“Tempo de Poesia”, de António Gedeão (1906-1997), abre o álbum que inclui poemas de Al Berto (1948-1997), Jorge de Sena (1919-1978), José Craveirinha (1922-2003) e António Pinto, assim como do próprio João Afonso.
A escolha do título justifica-se por “ser o que melhor representa este trabalho, ao evidenciar a importância da poesia”, disse o músico em entrevista à agência Lusa.
“Estamos em tempos de guerra, difíceis, preocupantes, e António Gedeão fala da poesia –‘Todo o tempo é de poesia/ Entre bombas que deflagram/ Corolas que se desdobram/ Corpos que em sangue soçobram’ -, e eu achei que este tempo de poesia, frase que ele usa muito, podia ser um título forte, não mais do que uma afirmação positiva de um grande poeta como o Gedeão, em tempos de espírito belicista, de corrida ao armamento, em tempo de guerras; para um disco que sai com a primavera”, acrescentou.
João Afonso gravou “Tempo de Poesia” com “a admirável voz de Sofia David”, que conheceu numa colaboração que fez num álbum do pai da cantora, José Manuel David.
“Sofia tem uma voz admirável. Foi extraordinária a forma como abordou esta canção e seguiu as minhas sugestões”.
Todas as músicas são em parceria com António Pinto. João Afonso assina cinco dos 11 poemas que interpreta. E os temas do álbum, afirma, “são universais”: “O amor, o desamor, o valor inegociável da liberdade e da independência estão presentes tanto nos poemas destes grandes poetas como, com alguma imodéstia da minha parte, nos meus textos”.
“A poesia dá-nos perspetivas diferentes do mundo”, prosseguiu João Afonso. “Um mundo que, neste momento, é de guerras e está numa corrida belicista, a poesia abre-nos um olhar diferente para o futuro”, garantiu, acrescentando que, face à conjuntura atual, está preocupado com “o futuro muito próximo”, por ter amigos, sobrinhos e filhos.
“O mundo deve olhar para as soluções, para os encontros, para o respeito e não para esta corrida que é incompreensível”, defendeu o músico.
Quanto à escolha dos poetas afirmou: “Jorge de Sena e António Gedeão tinham de estar; [José] Craveirinha foi o poema que me chamou”.
Do poeta moçambicano gravou “Um Homem não Chora” e, de Sena, “Independência”, em que “acentua a sua independência face a valores sociais, políticos e ideológicos”, uma canção em que contou com a participação da guitarra portuguesa de Marta Pereira da Costa.
Na conceção do álbum, João Afonso realçou “o assumir das [suas] origens e da [sua] musicalidade”.
“Sou um autodidata da guitarra e da composição. A minha música espelha muito a experiência com colegas músicos. Neste caso do álbum ‘Todo Tempo’, não tivemos todo o tempo, mas o suficiente para maturar as canções, e eu aprendi muito com António Pinto e com os músicos todos que colaboraram no trabalho”, disse.
João Afonso afirmou-se “muito feliz” com o resultado alcançado neste álbum, destacando os arranjos musicais de António Pinto, que o produz, e o “empenho de todos os músicos”.
O músico realçou a participação de Quiné Teles (bateria e percussão) e Paulo Jorge (baixo), “no balanço do álbum e na sua harmonia”
Além de Sofia David (voz) e de Marta Pereira da Costa (guitarra portuguesa), o álbum conta ainda com Rão Kyao (flauta) e o coro feminino Coura Voce, sob a direção do maestro Vítor Lima, como convidados.
O projeto inicial “era um disco com canções de poetas, mas depois foi crescendo em nós uma ideia diferente, e há canções de poemas de poetas que admiro muito”.
“Em relação aos poemas da minha autoria, nomeadamente no ‘Matope’, ‘Manga Verde’, ‘Sonhei-te’, há uma presença, além da raiz da música portuguesa, […] da memória afetiva das minhas origens moçambicanas – e não são só os cheiros e as cores e as memórias em Moçambique, é também a sonoridade que está lá presente”, defendeu, referindo-se à “harmonização” de todos esses sentimentos.
João Afonso assina ainda “Chuta para Canto” e “Folhas de Outono”, canções com “um olhar mais inimista”, e também “crítico”, sobretudo no caso de “Chuta para Canto”.
De Al Berto gravou “Pernoitas em mim”, que contou com a participação do cavaquinho de Jon Luz, a voz de Sofia David e a flauta de Rão Kyao, com o qual João Afonso colaborou pela primeira vez e considerou “uma enorme honra”, confessando-se “impressionado” com a sua performance e empenho: “Dançava tocando”.
“Todo Tempo” vai ser apresentado ao vivo no próximo dia 31, às 18:30, no espaço Atmosfera M, em Lisboa.
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