Moçambique inicia negociações salariais em contexto de dificuldades económicas

Maputo, 23 mar 2026 (Lusa) – O Governo moçambicano anunciou hoje o arranque das negociações para o reajuste salarial no país, apelando às partes envolvidas que “ponderem o equilíbrio” face às dificuldades socioeconómicas agravadas por fenómenos climáticos extremos e pelo fraco desempenho económico recente.

“O ano começa com um problema sério, mesmo no ano passado tivemos eventos climáticos extremos como o ciclone Chido e Dikeledi, este ano já iniciamos com o programa sério das Cheias”, disse Joaquim Siúta, porta-voz da Sessão Plenária Ordinária da Comissão Consultiva do Trabalho, realizada hoje em Maputo.

Portanto, adiantou “o que se prevê no debate do (…) lançamento do processo negocial, é que as forças sociais do mercado de trabalho ponderem o equilíbrio dadas as circunstâncias em que as economias ao nível mundial e ao nível internacional, a economia local está a enfrentar”.

Segundo o responsável, o desempenho económico negativo do país em 2025 — que registou uma contração de 0,52% — foi fortemente influenciado pelo contexto geopolítico internacional e pelos efeitos económicos do final de 2024, com protestos pós-eleitorais no país que destruíram centenas de infraestruturas, o que, sublinhou, “afetou significativamente o tecido empresarial moçambicano”.

“As forças sociais do mercado de trabalho é que vão ser determinantes neste processo, é que vão tomar a decisão, o Governo estará a fazer o seu trabalho, mas efetivamente é preciso ter em conta o contexto em que vivemos. É por isso que antes do processo negocial há esta apresentação que é para as partes irem à negociação conhecendo o ambiente macroeconómico”, referiu Siúta.

Boaventura Simbinde, porta-voz dos trabalhadores na sessão, afirmou que a classe vai para as negociações com a expectativa de alcançar “resultados possíveis”, reconhecendo o contexto sócio-económico difícil ultrapassado pelo país atualmente.

 “Nós sabemos que vamos às negociações com uma situação económica e social do país muito debilitada”, afirmou, assinalando a influência negativa da guerra no Médio Oriente para a economia nacional e a falta de pagamento às empresas que prestam serviços ao Estado.

Segundo Boaventura, a classe não espera ter resultados iguais aos dos outros anos nestas negociações, mas luta agora para a manutenção dos postos de trabalho e para alcançar “resultados que vão marcar uma diferença, do salário atual, para o salário a que for encontrado depois das negociações”.

O representante afirmou ainda que o salário mínimo no setor privado em Moçambique está aquém das necessidades básicas dos trabalhadores e alertou que algumas empresas estão em dívida com os colaboradores. 

“Se o salário mínimo em Moçambique fosse mais ou menos uns 12 mil meticais [162 euros] ou 15 mil meticais [202,6 euros], seria bom porque na situação atual o trabalhador podia ter um saco de arroz, carvão, aquelas necessidades básicas de casa, ainda conseguirem colocar os seus filhos na condição razoável para ir à escola”, acrescentou.

LCE // ANP

Lusa/Fim