
Lisboa, 18 mar 2026 (Lusa) — O artista Alexandre Estrela, autor do projeto que representará Portugal na 61.ª Bienal de Arte de Veneza, que começa em maio, manifestou-se hoje contra a participação da Rússia e de Israel no certame, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”.
“Não me revejo, e a equipa toda não se revê, neste apoio e neste silêncio [do Governo português] tanto ao Governo dos Estados Unidos como ao de Israel”, afirmou Alexandre Estrela aos jornalistas, hoje, em Lisboa, quando questionado sobre a sua posição em relação à participação de Israel e da Rússia no certame, à margem da apresentação à imprensa da Representação Oficial Portuguesa na 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, que decorre entre maio e novembro em Itália.
O artista disse ainda que ele e a sua equipa são também, “obviamente”, contra a participação da Rússia.
“Somos solidários com os povos oprimidos”, afirmou.
Alexandre Estrela é um dos 183 signatários de uma carta aberta, divulgada na terça-feira, na qual participantes, entre artistas e curadores, e trabalhadores da 61.ª Bienal de Arte pedem a exclusão de Israel do certame.
Na carta, promovida pela Aliança Arte Não Genocídio (ANGA), disponível ‘online’, os signatários defendem que “a cumplicidade da Bienal de Veneza com a tentativa de destruição da vida palestiniana tem de acabar”.
“Nenhum artista ou profissional da cultura deve ser convidado a partilhar uma plataforma com este Estado genocida. Enquanto Israel continuar a existir através do genocídio, da limpeza étnica e do ‘apartheid’, não deve estar representado na Bienal de Veneza. O genocídio não pode ser tolerado por uma instituição que visa investigar e celebrar os valores humanos personificados pela arte”, lê-se na carta.
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, questionada hoje na mesma ocasião sobre o tema, começou por dizer aos jornalistas que a participação da Rússia e de Israel na Bienal de Arte de Veneza “é uma escolha da organização, extravasa o campo político europeu, e até o próprio Governo italiano, que já teve necessidade de se pronunciar publicamente sobre isso”.
“No caso português, associámo-nos, assinámos carta a dar nota do nosso desagrado com a participação da Rússia na Bienal de Veneza, mas sabemos que é uma decisão da bienal”, referiu.
Em 10 de março, os ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros de 22 países, entre os quais Bélgica, Suíça, França, Espanha, Alemanha e Ucrânia, manifestaram-se contra a presença da Rússia na Bienal de Arte de Veneza, considerando a sua participação “inaceitável nas atuais circunstâncias”.
Numa carta conjunta, citada pela agência ANSA, os governantes apelam à direção da bienal que “reconsidere a participação da Federação Russa na Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza”.
Embora a organização nunca tenha proibido a participação da Rússia, o país esteve ausente da Bienal de Arte nas edições de 2022 e 2024.
Em 2022, os artistas e curadores do Pavilhão da Rússia desistiram de participar como forma de protesto contra a guerra, que começou em fevereiro desse ano.
Em 2024, a Rússia voltou a não participar, cedendo o seu pavilhão, situado nos Jardins da Bienal, à Bolívia.
Este ano, o pavilhão da Rússia acolhe o projeto “The tree is rooted in the sky” (“A árvore tem raízes no céu”, em tradução livre), comissariado por Anastasiia Karneeva, para uma exposição que reúne cerca de 40 artistas, entre eles Lizaveta Anshina, Ekaterina Antonenko, Antonio Buonuario e DJ Diaki.
Em 11 de março, a Comissão Europeia condenou a decisão da Bienal de Veneza de autorizar a participação da Rússia, referindo que o financiamento da União Europeia fica em risco caso a decisão se mantenha.
A Ucrânia tem contado com ajuda financeira e em armamento dos aliados ocidentais desde que a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro de 2022.
Já em relação à participação de Israel na Bienal de Veneza, a ministra Margarida Balseiro Lopes lembrou que “não há nenhuma posição a nível europeu como há em relação à Rússia”, além da “carta assinada por vários artistas”.
“O Governo português tem nestas, como em outras matérias, uma prioridade que é articular com os nossos parceiros europeus. O que dizemos é que a participação da Rússia legitima uma agressão que está a ocorrer na Ucrânia já há vários anos”, afirmou.
Quanto a Israel, a ministra considerou “importante reforçar aquela que é a posição do Estado português, e que tem sido muito coerente, que é a defesa dos dois estados, a defesa do direito internacional”.
“E relativamente ao conflito que está atualmente a decorrer naquela geografia a nossa posição é a defesa de que a via diplomática, a do diálogo, e o caminho que deve ser seguido”, afirmou.
Os ataques militares de Israel no território palestiniano da Faixa de Gaza, nos dois últimos anos, mataram pelo menos 72 mil pessoas e foram classificados como genocídio por uma comissão internacional independente de investigação da Organização das Nações Unidas.
A 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, que tem início a 09 de maio, conta com 99 pavilhões nacionais de todo o mundo.
Sob o tema “In Minor Keys” e conceito de Koyo Kouoh, a Bienal de Arte terá ainda 31 eventos paralelos a decorrer até ao encerramento, em 22 de novembro de 2026, em vários locais de Veneza.
Sete países participam pela primeira vez nesta Bienal de Arte: Guiné, Guiné Equatorial, Nauru, Qatar, Serra Leoa, Somália e Vietname. Além disso, El Salvador participa pela primeira vez com o seu próprio pavilhão.
Portugal estará representado pelo projeto artístico “RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela, comissariado pela Direção-Geral das Artes, com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, no Palácio Fondaco Marcello.
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