ONU alerta para risco de “mundo se habituar” às restrições que as mulheres afegãs sofrem

Nações Unidas, 17 mar 2026 (Lusa) – A ONU alertou hoje que um dos maiores riscos que as mulheres afegãs enfrentam é a possibilidade de “o mundo se habituar às restrições” que as mesmas sofrem no próprio país.

“Quero destacar um dos maiores riscos que as mulheres afegãs enfrentam, que é o risco de o mundo se habituar às restrições que as mulheres enfrentam aqui. Quando começamos a aceitar isto como normal, deixamos de acreditar que a situação pode mudar e deixamos de ver a mudança”, declarou hoje Susan Ferguson, representante da ONU Mulheres no Afeganistão.

Numa declaração aos jornalistas, feita por videoconferência através da capital afegã, Cabul, Susan Ferguson apelou à comunidade internacional, incluindo aos decisores reunidos em Nova Iorque esta semana para a Comissão sobre o Estatuto da Mulher, que não classifiquem a situação enfrentada pelas afegãs como “normal”.

“Apesar de todos os obstáculos e restrições, as mulheres afegãs continuam a demonstrar uma coragem e uma determinação extraordinárias, e nós também precisamos de as demonstrar. A mudança ainda é possível, mas só se o mundo continuar a apoiar as mulheres afegãs”, insistiu.

A representante da ONU relembrou que, para as mulheres e meninas no Afeganistão, 2026 já se anunciava como um ano extremamente difícil.

Contudo, agora, com o conflito no Médio Oriente e as hostilidades em curso com o Paquistão, muitas enfrentam ainda mais traumas e dificuldades.

Na noite anterior, um ataque aéreo atribuído às forças paquistanesas atingiu um centro de apoio a toxicodependentes na capital afegã e matou mais de 400 pessoas.

Desde o final de fevereiro, o Afeganistão está mergulhado numa espiral dupla de violência: a oeste, a guerra desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão; no leste, uma escalada militar com o Paquistão, que acusa os talibãs de abrigar combatentes de um grupo armado suspeito de realizar ataques mortais em solo paquistanês.

Trocas de tiros, ataques aéreos paquistaneses e encerramento de fronteiras estão a multiplicar-se. 

No leste do país, os números mostram a dimensão do choque: mais de 64 mil pessoas foram afetadas pela escalada militar em quatro distritos fronteiriços, “pouco mais da metade delas mulheres e meninas”, segundo Ferguson.

Algumas já haviam deixado as suas casas no último ano, principalmente após o sismo de agosto de 2025.

“Para muitas mulheres, esta é a segunda, ou mesmo a terceira vez que são forçadas a fugir no último ano”, enfatizou.

Nas estradas, essas mulheres e meninas temem “violência ou exploração”, enquanto o acesso a serviços básicos — saúde, água, meios de subsistência — entra em colapso mais uma vez.

Por outro lado, o país observa o regresso de pessoas vindas do Irão.

A ONU projeta que mulheres, sozinhas ou com crianças, se aglomerem numa fronteira já sobrecarregada pela ofensiva israelo-americana contra Teerão, obrigando as agências humanitárias a prepararem-se para um novo fluxo migratório.

Além da violência militar, há uma crescente pressão económica.

“As mulheres e meninas no Afeganistão simplesmente não podem suportar outro choque económico”, alertou a representante da ONU Mulheres.

Para 2026, a ONU já projetava que 10,7 milhões de mulheres de meninas necessitariam de assistência humanitária.

Agora, o aumento dos preços ligado ao conflito na região tornará ainda mais difícil para as famílias, especialmente as chefiadas por mulheres, comprar alimentos e outros bens essenciais.

A ONU Mulheres está a tentar expandir a assistência financeira, distribuir ‘kits’ essenciais e apoiar pequenas atividades geradoras de rendimentos. Contudo, a agência enfrenta um défice de financiamento de 50%.

Mas é na área dos direitos que a situação é mais condenatória.

Susan Ferguson denunciou um recente decreto que “anula formalmente a igualdade entre homens e mulheres perante a lei” e autoriza formas de violência doméstica.

Em concreto, este texto permite que figuras masculinas — maridos, pais — exerçam “disciplina moral” fora das instituições judiciais, inclusive por meio de castigos corporais.

Também torna o acesso à justiça praticamente impossível: para que a violência seja reconhecida, uma mulher deve apresentar lesões visíveis e comparecer ao tribunal acompanhada por um guardião do sexo masculino – potencialmente o seu agressor.

“Estamos profundamente preocupados com este decreto”, insistiu a funcionária da ONU, apelando às autoridades talibãs, que voltaram ao poder no Afeganistão em agosto de 2021, para que respeitem as obrigações internacionais do país em matéria de direitos humanos.

 

MYMM // SCA

Lusa/Fim