
Lisboa, 28 fev 2026 (Lusa) – O politólogo João Carvalho considera que a desfiliação de vários vereadores eleitos pelo Chega nas últimas eleições autárquicas “enfraquece um pouco a respeitabilidade e reputação” do partido, mas não acredita que influencie o eleitorado.
“Esta saÃda dos sete vereadores enfraquece um pouco a respeitabilidade e a reputação do Chega enquanto um partido de governação. Até que ponto terá consequências a nÃvel nacional? eu tenho grandes dúvidas”, afirma o investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.
Em entrevista à agência Lusa para o ‘podcast’ Lusa Extra, João Carvalho considera que estas cisões “não têm repercussão no eleitorado” do Chega, porque “apesar dos motivos enunciados pelos vereadores que se desfiliam do partido, as pessoas não associam esses motivos à figura da André Ventura”.
O investigador do CIES-ISCTE refere que algumas pessoas defendem que “o desrespeito pelas diretivas do partido deve ser castigado, ou seja, o autoritarismo pode ser bem-vindo por segmentos do eleitorado”.Â
O especialista antecipa igualmente que os acordos autárquicos que levaram à entrada do Chega na governação de alguns municÃpios, com a atribuição de pelouros, “poderão tentar ser um balão de ensaio para futuras ligações e negociações entre PSD e Chega”.
“Uma vez que o Chega consegue prevenir que o centro-direita tenha maioria absoluta a nÃvel nacional e a nÃvel local, o PSD vê-se obrigado e parece mais apto a fazer coligações e acordos polÃticos com o Chega do que com o centro-esquerda ou partidos de centro” e também “para normalizar o Chega como um partido da democracia liberal absolutamente normal, como os outros”, afirma João Carvalho.
Na opinião deste especialista, a entrada do Chega em vários executivos municipais leva ao “desvanecer a imagem do partido anti-elitista, e poderá criar a imagem que o Chega é um partido como os outros”.Â
João Carvalho considera que o partido liderado por André Ventura revela alguma “ambiguidade” na sua postura, uma vez que “sempre mostrou uma grande predisposição de entrar nos executivos”, ao mesmo tempo que se quer “apresentar como o inimigo das elites polÃticas tradicionais”.
“Esta ambiguidade – de um dia contra, um dia a favor, um dia somos contra os tachos, outro dia queremos cinco ministros – parece que continua a manter-se, mas isso não afeta a popularidade de André Ventura”, aponta.
O cientista polÃtico considerou que se trata de “uma crise de identidade do partido, que não conseguiu até agora criar essa cultura de governação”, pois “está muito preso à cultura de protesto, de se apresentar como um partido de protesto relativamente aos partidos já estabelecidos”.
No ‘podcast’ Lusa Extra, João Carvalho lembrou que também após as autárquicas anteriores, em 2021, houve saÃdas de eleitos do partido e considerou que isso demonstra “uma forte divergência entre as diretivas nacionais do Chega e as prioridades em termos locais dos eleitos”.
“Prevaleceu o centralismo e não foi dado espaço à s dinâmicas locais determinarem a atuação dos vereadores”, afirmou o investigador.
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