Investigador aponta “domínio de Ventura sobre o Chega” comparável à Coreia do Norte

Lisboa, 28 fev 2026 (Lusa) – O investigador João Carvalho considera que existe um domínio de André Ventura sobre o Chega, partido que lidera, e um “culto de personalidade” comparável ao que se verifica com os ditadores da Coreia do Norte.

“André Ventura é o Chega”, afirma o doutorado em ciência política, entrevistado no ‘podcast’ Lusa Extra.

O investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE refere que existe no segundo maior partido do parlamento “falta de democracia interna” e um “domínio interno de André Ventura sobre o Chega”. 

“Um culto de personalidade que só é comparável àquilo que se observa na Coreia do Norte com o querido líder”, afirma.

João Carvalho considera que “a ideia do líder forte e autoritário em Portugal continua a predominar”, e “André Ventura consegue restabelecê-la e dar-lhe um novo invólucro”. 

O politólogo defende que “o Chega vive muito dependente de André Ventura”, o que é visível em termos eleitorais.

“O Chega como partido é muito mais fraco do que André Ventura enquanto candidato”, considera, referindo que em eleições autárquicas e europeias, “em que André Ventura não é o candidato direto no boletim de voto, a capacidade de mobilização do Chega é bastante e francamente inferior” em relação a legislativas e presidenciais.

O investigador do CIES-ISCTE alerta também que “sem André Ventura, o futuro do Chega poderá estar em risco”.

“A ciência política demonstra que os partidos fundados por um empreendedor que não têm grandes bases sociais e enraizamento social, têm tendência a ser mais frágeis em termos de continuidade no futuro do que os partidos que têm uma forte ligação com bases sociais”, justifica.

Na opinião deste cientista político, o Chega “consegue muito bem segmentar e fidelizar um segmento do eleitorado que se revê em André Ventura”, mas “tem uma grande dificuldade em apresentar-se como uma força credível ao restante eleitorado”.

João Carvalho antecipa que “a nível local, como também a nível da Assembleia da República, o Chega poderá vir a ser forçado a mudar de postura, e ser chamado, como foi em várias autarquias, a posições de responsabilidade política e de ter que tomar opções que contrariam um pouco o seu discurso anti-elitista”.

O investigador assinala igualmente que “o Chega poderá tentar mostrar nas autarquias o projeto que tem para o país”, mas isso implicaria que os presidentes das três câmaras presididas pelo partido (Entroncamento, Albufeira e São Vicente) tivessem “muito maior protagonismo”.

“Parece-me que isso vai contra a dinâmica do próprio partido”, que passa por “alimentar a imagem da André Ventura como o líder absoluto”, defende o especialista, afirmando que não existe espaço para “contrapoder ou contradição dentro do Chega”.

João Carvalho assinala também que o conflito interno “é uma das maiores causas do desaparecimento” de partidos de extrema-direita. 

“Os partidos de extrema-direita não desaparecem porque as pessoas deixam de acreditar nas suas ideias e de se identificar nas suas ideias”, explica.

Sobre as suspeitas de alegada ligação de alguns membros do partido, como o deputado Rui Afonso, ao grupo neonazi 1143, João Carvalho refere que, “uma vez que o Chega já está consolidado, estas notícias já têm menos impacto do que se fosse uma fase mais precoce do partido”.

O investigador do ISCTE refere ainda que “não houve nenhuma moderação do discurso do Chega, não houve nenhum esforço até agora do Chega de se apresentar com uma força de governação credível, que era o que se esperava depois do crescimento eleitoral”.

“Ao contrário da moderação que seria prevista ao longo do tempo, o Chega continua a adotar a mesma estratégia radical de 2019 e de certa forma continua a ser bem-sucedido, uma vez que conseguiu fixar o seu eleitorado, embora pareça que a taxa de crescimento parece mais lenta do que no passado”, acrescenta.

 

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