Ministro moçambicano da Saúde considera greve no setor “uma tristeza”

Maputo, 16 fev 2026 (Lusa) – O ministro moçambicano da Saúde disse hoje que a greve dos profissionais do setor é “uma tristeza”, admitindo haver problemas após o anúncio de prorrogação da paralisação por mais 30 dias.

“Neste momento, na realidade, o país está a trabalhar, os colegas compreenderam a mensagem, estão no terreno, estão a trabalhar. Estamos agora num momento de emergência em todo o país, estamos focados em ajudar as populações, por isso quando se fala de greve é uma tristeza, porque a nossa missão é ajudar”, disse o ministro da Saúde de Moçambique, Ussene Isse.

Em causa está a prorrogação da greve por mais 30 dias, anunciada hoje pelos profissionais de saúde moçambicanos, que relataram que mais de 725 pessoas morreram por falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias, desde janeiro.

“Apesar das sucessivas manifestações públicas e apelos formais ao diálogo, o Governo continua a adotar uma postura de confronto e braço de ferro, ao invés de assumir uma posição responsável e orientada à resolução dos problemas estruturais que afetam o setor nacional de saúde”, disse hoje o presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), Anselmo Muchave.

Em declarações aos jornalistas à margem da reunião de lançamento do projeto de Revitalização da Manutenção Hospitalar no Serviço Nacional da Saúde, o ministro da Saúde pediu diálogo para travar a greve.

“Como disse, temos todos os problemas, reconheço que temos problemas, mas vamos continuar a dialogar para ultrapassar o que nos difere. Estamos aqui em aberto, não estamos em guerra e nem queremos guerra”, disse Ussene Isse.

Segundo Anselmo Muchave, a extensão da greve dos profissionais de saúde, iniciada em 16 de janeiro, em reivindicação do pagamento completo do 13.º salário de 2025 – contra os 40% aprovados pelo Governo a pagar até fevereiro – e melhores condições de trabalho no setor, resulta da ausência de um diálogo “sério, transparente e produtivo” com o Governo.

Segundo o responsável, durante o protesto, denominado “greve de braços cruzados”, os centros de saúde continuam a funcionar em condições extremamente precárias, com falta recorrente de medicamentos essenciais, materiais médicos cirúrgicos insuficientes e condições inadequadas para a prestação de cuidados dignos à população.

“Nessa luta, nesse mês, lamentamos nós, profissionais de saúde, a perda de mais de 725 moçambicanos por falta de atendimento nas unidades sanitárias, falta de alimentação, transferências, falta de medicamentos e material médico cirúrgico. E, por isso, dizemos, a nossa luta não vai parar”, frisou.

Citando o recente anúncio de um concurso fechado de compra de medicamentos avaliado em 465 milhões de dólares (391,9 milhões de euros), Anselmo Muchave assinalou que “isso demonstra que Moçambique até hoje não tem medicamentos para o setor nacional de saúde”, assistindo-se diariamente ao aumento de mortes evitáveis nas unidades sanitárias, “consequência de degradação contínua do Sistema Nacional de Saúde”.

O presidente daquela associação, que abrange cerca de 65.000 profissionais de saúde de diferentes departamentos, reafirmou a abertura para um diálogo “sério, responsável e orientado a resultados concretos”, contudo, reiterou também que, enquanto persistir a ausência de compromissos reais e soluções estruturais com o Governo, “a greve continuará”.

Há uma semana, o Governo moçambicano criticou os profissionais de saúde em greve pelo pagamento total do 13.º salário, referindo que, ao não atender doentes, estão a “castigar os seus concidadãos” e pedindo diálogo face à paralisação que “traz prejuízos”.

Em 26 de janeiro, a Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) afirmou que a greve em curso é para manter, apesar das inundações em mais de 200 unidades sanitárias, acusando o Governo de ameaças para a retoma das atividades.

PME (LCE) // MLL

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