Investigação alerta para impacto de vídeos curtos no desenvolvimento cognitivo de crianças

Macau, China, 15 fev 2026 (Lusa) — Duas investigadoras da Universidade de Macau concluíram que vídeos de formato curto usados nas redes sociais e vistos em “scrolling” nos telemóveis impactam negativamente o desenvolvimento cognitivo das crianças, podendo causar ansiedade social e insegurança.

“O consumo compulsivo de vídeos curtos tem um impacto negativo no desenvolvimento cognitivo, podendo causar falta de concentração, ansiedade social e dúvidas sobre si próprio”, explicou em declarações à Lusa Wang Wei, académica da área da Psicologia Educacional da Universidade de Macau (UM), autora do estudo “Dependência de vídeos curtos, envolvimento escolar e inclusão social entre estudantes rurais chineses”.

“Esta conceção do vídeo curto pode ser particularmente perigosa para as crianças”, alertou a investigadora. “A nossa investigação indica uma correlação direta: quanto mais os estudantes consomem vídeos curtos, menos se envolvem com a escola”, prossegiu Wang.

Wang argumenta que, embora as necessidades psicológicas fundamentais das crianças devam ser satisfeitas ‘offline’, a arquitetura das plataformas de vídeos curtos, com algoritmos personalizados e funcionalidades de interação social, satisfaz direta e subtilmente essas mesmas necessidades.

Esta satisfação paralela, sugere a investigação de Wang, “leva potencialmente a um uso excessivo e ao vício”.

“A natureza estimulante e de ritmo acelerado dos vídeos curtos torna-os altamente divertidos para os alunos,” acrescentou ainda a investigadora.

Anise Wu Man Sze, professora de Psicologia na Faculdade de Ciências Sociais da UM e autora do estudo “A relação das componentes afetivas e cognitivas no uso problemático de vídeos curtos”, acrescenta às conclusões de Wang as questões relacionadas com a sobre-estimulação das crianças, que prejudicam ainda mais o desenvolvimento cognitivo saudável.

Os vídeos curtos capturam a atenção de todos precisamente porque “estão logo ali à mão e são gratuitos”, sublinha Wu, em declarações à Lusa. As pessoas podem aceder a quantidades vastas de vídeos curtos “a qualquer hora, em qualquer lugar”.

Ora, esses comportamentos de dependência têm frequentemente origem num “propósito funcional”, explicou.

“Temos de aumentar a consciencialização, sobretudo se o uso começar a afetar a vida quotidiana, levando ao sacrifício do tempo em família, à negligência do sono, ou as pessoas a navegarem em momentos inadequados, como durante as aulas ou a conduzir, pondo em risco a própria pessoa ou outras”, afirmou à Lusa.

Para além do design das plataformas, utilização de algoritmos e natureza dos próprios vídeos rápidos, Wu identificou outros fatores que desencadeiam a relação de dependência.

Segundo a investigora, o ‘stress’ diário, mas também o ambiente e mesmo predisposição genética contribuem para comportamentos de dependência, detalhou no estudo.

“Na verdade, uma das razões primárias para a dependência, que resulta nestes comportamentos compulsivos, é a do escape a realidades desagradáveis, pressões ou situações que as pessoas desejam evitar confrontar”, explicou Anise Wu, apelando à consciencialização dos efeitos da visualização de vídeos curtos.

Quanto a intervenções junto das crianças, segundo Wang Wei, “é muito importante” satisfazer as suas necessidades emocionais, cultivando ao mesmo tempo a literacia digital e competências de autorregulação, “em vez de nos limitarmos a tirar-lhes o telemóvel”.

Até dezembro de 2024, o número de pessoas com acesso a este tipo de vídeos na China atingiu perto de 1,1 mil milhões de indivíduos, sendo que 98,4% eram utilizadores ativos deste formato, de acordo com o Relatório Anual sobre o Desenvolvimento dos Serviços Audiovisuais na Internet, publicado pelas autoridades chinesas.

“A dimensão da indústria superou os 1,22 biliões de yuan [149 mil milhões de euros], impulsionada pelo consumo de vídeos curtos e ‘live streaming’ [transmissão em tempo real]. As microsséries testemunharam um crescimento explosivo de utilizadores, enquanto a IA [Inteligência Artificial] generativa remodelou o ecossistema de conteúdos”, revelou o relatório.

JW // APL/JMC

Lusa/Fim