Secretário de Segurança russo acusa EUA de populismo na relação com Moscovo

Moscovo, 10 fev 2026 (Lusa) — O secretário do Conselho de Segurança russo, Sergei Shoigu, acusou hoje os Estados Unidos (EUA) de recorrerem a “‘slogans’ populistas” em vez de discutirem seriamente a estabilidade estratégica com Moscovo.

“As declarações dos Estados Unidos sobre a sua disponibilidade para cooperar para reforçar a estabilidade estratégica não passam de ‘slogans’ populistas”, disse Shoigu ao jornal Kommersant, comentando a situação em torno do fim do prazo, na semana passada, da vigência do tratado sobre arsenal nuclear dos dois países START III.

Segundo o ex-ministro da Defesa russo, “a culpa pela destruição completa do quadro legal para a estabilidade estratégica” é de Washington.

Shoigu sublinhou que a administração norte-americana denunciou primeiro o Tratado de Mísseis Antibalísticos “sob falsos pretextos”, depois “destruiu o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio e retirou-se unilateralmente do Tratado de Céus Abertos”.

Ao mesmo tempo, afirmou que a Rússia está aberta a considerar novas iniciativas na área da estabilidade global.

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, já tinha avisado que o fim do prazo do tratado START III criava um vazio na área do desarmamento nuclear.

O Kremlin (presidência), por sua vez, comentou que a Rússia e os Estados Unidos “estão conscientes da necessidade de um início imediato das negociações sobre esta questão”.

O Tratado de Redução de Armas Estratégicas, conhecido como START III, foi assinado pelos então presidentes da Rússia, Dmitri Medvedev, e dos Estados Unidos, Barack Obama, em 08 de abril de 2010, em Praga, e renovado em fevereiro de 2021 por mais cinco anos.

O chefe da diplomacia de Moscovo já tinha criticado os Estados Unidos na segunda-feira, a propósito da Ucrânia, referindo que o Presidente norte-americano, Donald Trump, não acolheu as propostas sobre o fim do conflito por parte do homólogo russo, Vladimir Putin, na cimeira que ambos realizaram em agosto no Alasca.

“Em Anchorage, no Alasca, aceitámos a proposta dos EUA (…), e eles terão feito uma oferta em relação à Ucrânia, para a qual estávamos preparados — agora eles já não estão — e também não vemos um futuro promissor na esfera económica”, declarou Lavrov, em entrevista à BRICS TV.

O ministro russo comparou a administração Trump à do seu antecessor, Joe Biden (2021-2025), por não ter removido as sanções impostas à Rússia após a guerra na Ucrânia.

“Apesar de todas as declarações da administração Trump sobre a necessidade de pôr fim à guerra que Biden desencadeou na Ucrânia, chegar a um acordo, retirá-la da agenda e supostamente abrir perspetivas claras e promissoras para o investimento e a cooperação russo-americana, não impede as leis aprovadas por Biden para punir a Rússia após o início da guerra”, observou.

O chefe da diplomacia de Moscovo recordou ainda as sanções impostas em novembro contra as principais petrolíferas russas, a Lukoil e a Rosneft, “algumas semanas após o excelente encontro” entre Vladimir Putin e Donald Trump, em Anchorage.

O ministro lamentou que, após a cimeira, as relações deveriam ter evoluído para uma cooperação mais ampla, “mas, na prática, ocorreu o contrário”, uma vez que os norte-americanos “estão a criar barreiras artificiais”.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, também destacou na segunda-feira “os entendimentos alcançados” no Alasca e que a parte russa continua a trabalhar neles.

“Os entendimentos alcançados em Anchorage são fundamentais e podem impulsionar o processo de resolução do conflito ucraniano e permitir progressos significativos”, acrescentou Peskov sobre um presumível entendimento entre Trump e Putin para o conflito.

A Rússia e a Ucrânia realizaram duas rondas de negociações diretas nas últimas semanas, mediadas pelos Estados Unidos, que decorreram nos Emirados Árabes Unidos.

A próxima reunião neste formato, para a qual ainda não há data definida, deverá realizar-se em breve nos Estados Unidos, segundo indicaram as partes envolvidas nas conversações de paz.

A última sessão de reuniões tripartidas terminou na quinta-feira em Abu Dhabi e apenas resultou numa nova troca de prisioneiros de guerra e no acordo de prosseguir o diálogo.

As partes continuam porém afastadas em relação às principais questões, relacionadas com o futuro das regiões no leste da Ucrânia reivindicadas pela Rússia e por garantias de segurança a Kiev para prevenir uma nova agressão de Moscovo.

A Ucrânia tem insistido que não fará cedências do seu território, enquanto a Rússia não aceita o envio de forças ocidentais de paz para o país vizinho.

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