
Tóquio, 06 fev 2026 (Lusa) — Os apoiantes de Sanae Takaichi costumam gritar “hatarakuzo!” (“eu vou trabalhar!”) nos comícios da campanha para as eleições antecipadas de domingo, respondendo ao desafio da primeira mulher a chefiar um governo no Japão.
Takaichi apresenta-se como uma líder trabalhadora, acessível e símbolo de renovação, gerando uma onda de entusiasmo mesmo entre os jovens, apesar de ser ultraconservadora e admirador a “dama de ferro” britânica Margaret Thatcher (1925-2013).
A popularidade da primeira-ministra tem sido destacada pela imprensa internacional, como assinalou esta semana o jornal britânico The Financial Times (FT) num artigo sobre o “magnetismo de Takaichi”.
“A fama repentina de Takaichi, pelo menos por enquanto, aliviou um pouco do desespero público de longa data em relação à política japonesa”, considerou o FT.
Takaichi, 64 anos, “herdeira política” de Shinzo Abe, o antigo primeiro-ministro assassinado em 2022, pode conseguir uma vitória folgada nas eleições para a câmara baixa do parlamento.
Esse foi, aliás, o seu objetivo quando anunciou as eleições em 19 de janeiro, cerca de três meses depois de ter sucedido a Shigeru Ishiba na chefia do executivo e do Partido Liberal Democrata (LDP, como é conhecido).
“Será Takaichi apta para o cargo de primeira-ministra? Quis deixar a decisão ao povo soberano”, justificou então.
O propósito de Takaichi parece claro, dado que goza de uma aprovação superior a 60%, muito acima da intenção de voto no partido.
O LDP tem governado o Japão quase ininterruptamente nos últimos 80 anos, mas viu a popularidade afetada por escândalos de financiamento e pela incapacidade de travar a inflação galopante.
Takaichi herdou um LDP com uma maioria frágil de apenas um deputado na Câmara de Representantes em coligação com o Partido da Inovação do Japão (Ishin).
Sondagens recentes do jornal Nikkei, citadas pela agência espanhola EFE, apontam que o LDP pode eleger, sozinho, 233 dos 465 dos deputados.
Se os resultados se aproximarem das sondagens, Takaichi pode conseguir um mandato reforçado e confirmar o sucesso de uma jogada que não é inédita no Japão, onde é raro cumprir-se a legislatura de quatro anos.
Os principais concorrentes são a Aliança Reformista Centrista (CRA), formada pelo Partido Democrático Constitucional (PDC) e pelo budista Komeito, que foi aliado do LDP durante qualquer três décadas.
Também se antecipa uma subida do Sanseito, um partido de extrema-direita anti-imigração.
Com apenas 12 dias de campanha oficial, as eleições realizam-se sob um inverno rigoroso, com muita neve a causar pelo menos 38 mortos e a dificultar o envio de boletins de voto para zonas mais remotas.
Com uma inflação persistente de cerca de 3% e o declínio dos salários reais, a economia tem dominado o debate.
Takaichi prometeu uma política fiscal expansiva, incluindo um orçamento para 2026 de 122,3 biliões de ienes (cerca de 660 mil milhões de euros, ao câmbio atual) e a isenção de impostos sobre alimentos durante dois anos.
As medidas têm gerado nervosismo nos mercados, contribuindo para a depreciação do iene.
Apesar de o entusiasmo sobre Takaichi ser um fenómeno interno, a que não será alheio o facto de ser a primeira mulher no cargo, as ramificações das eleições terão um impacto global, segundo o FT.
O mandato, apesar de curto, “já provocou abalos nos mercados” japonês e norte-americano, e uma “disputa contínua entre o Japão e a China ensombra a relação comercial mais importante da Ásia”, escreveu o jornal.
As relações com Pequim deterioraram-se após Takaichi ter sugerido em novembro que o Japão podia intervir militarmente se a China atacasse Taiwan.
Embora se tivesse oferecido para dialogar com Pequim, Takaichi não retirou as declarações e manteve uma postura firme que agrada ao eleitorado mais nacionalista do LDP, mas preocupa os parceiros comerciais na Ásia.
Analistas preveem que Pequim possa intensificar a pressão comercial através da restrição de exportações de terras raras, componentes críticos para a indústria tecnológica japonesa, referiu o FT.
Takaichi tem demonstrado uma presença ativa na cena internacional, e no pouco tempo em funções recebeu em Tóquio líderes como o norte-americano Donald Trump ou o britânico Keir Starmer.
Tem advogado reforçar o legado de Abe, que a chamou para o seu primeiro governo em 2006, nomeadamente em matéria de política externa, com o fortalecimento das alianças tradicionais do Japão e um maior investimento na defesa.
Do lado da Europa, a especialista em relações com o Japão e Ásia-Pacífico do Conselho Europeu para as Relações Externas, Elli-Katharina Pohlkamp, defendeu, em novembro, que o Japão será um parceiro indispensável com Takaichi, mas isso não será automático.
“Se a Europa não agir, corre o risco de ficar a assistir na bancada enquanto o Japão se enreda num bloco económico e de segurança liderado pelos Estados Unidos”, alertou.
Defendeu, para isso, que Bruxelas deve apostar numa cooperação mais estreita com Tóquio em vários domínios, incluindo minerais críticos, segurança da informação, redução à exposição às cadeias de abastecimento da China e esforço de rearmamento japonês.
“Isto vai permitir à UE moldar, em vez de apenas reagir à agenda Takaichi-Trump”, justificou.
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