
Leiria, 30 jan 2026 (Lusa) – Pinheiros vergados e decepados pela força do vento fazem parte do cenário desolador deixado pela passagem da depressão Kristin na A8 já perto da saÃda para a Marinha Grande, imagem de destruição que se mantém à chegada a Leiria.
A reportagem da agência Lusa deslocou-se a Leiria, por onde a depressão entrou em Portugal continental, um dos distritos mais afetados, a par de Coimbra e Santarém, com as populações ao redor da cidade ainda sem água e eletricidade.
Aquilo que se vê é difÃcil de descrever, mas por todo o lado há sinais caÃdos, árvores curvadas ou amputadas com a madeira à mostra parecendo ter sido afiadas com um apara lápis gigante.
O estádio Dr. Magalhães Pessoa, em plena cidade de Leiria, construÃdo de raiz para o Euro2004 parece abandonado quando ainda há pouco foi palco da final da Taça da Liga de futebol nacional.
A estrutura de betão está no sÃtio, mas por todo o lado se veem lonas a dançar ao vento, janelas partidas e ferros retorcidos.
Jaime Marques, de 89 anos, disse à Lusa que estava a dar uma volta pela cidade para ver os estragos do temporal. A sua casa, pouco acima do estádio, teve prejuÃzos, mas ainda assim confessa que teve sorte.
Morador em Leiria desde os anos 70, reconheceu que a tempestade que assolou a cidade foi assustadora e não se lembra de tal cenário enquanto adulto, “só menino” tem imagens de temporais parecidos.
“Os danos aqui à volta, aqueles que conheço, são desastrosos e só não aconteceram muitas mortes porque isto foi de noite, se tem acontecido de dia…”, desabafou Jaime Marques.
Percorridos cerca de 10 quilómetros, em Alcogulhe, na Azóia, a oficina Auto Lab Rafael Pais ficou apenas com as paredes de pé. O dono, Rafael, limpava o interior como podia, ajudado pela famÃlia, tirava água e entulho para fora do espaço.
O táxi com bandeira da Nazaré já não estava no suporte onde tinha ficado na noite de terça para quarta-feira. Teve de ser descido já depois de o telhado da oficina ter caÃdo para a parte de trás do espaço. Mais carros estavam estacionados no parque exterior.
“Há dois anos que funciona aqui a oficina. É um sonho. Tenho vindo a investir muito dinheiro para ficar ainda melhor e agora…”, Rafael Pais emociona-se antes de prosseguir: “um familiar ligou pelas quatro e tal da madrugada [de quarta-feira] a dizer que o portão tinha caÃdo, pouco depois de chegar cá com os meus irmãos o teto caiu todo”.
Nas imediações há carros destruÃdos. O jovem disse ainda à Lusa que há proprietários que podiam vir buscar os veÃculos que não ficaram danificados, mas não há comunicações. Há dois dias que não têm eletricidade, rede móvel e água.
A violência da passagem do vento deixou marcas. Em muitas casas ao longo dos quilómetros percorridos pela Lusa é visÃvel a falta de telhas, aqui e ali.
Na Pocariça, uns quilómetros mais à frente, o cenário permanece igual. Há dois homens à beira da estrada, junto a uma casa, cujas telhas foram levadas pelo vento, a cortar as árvores que se deitaram no alcatrão.
Estão atarefados, a adrenalina de fazer o serviço o mais depressa possÃvel para depois passarem à casa de outro vizinho e ajudarem. O homem com a moto serra na mão, na casa dos 55 anos não quis ser identificado. Disse apenas que foi uma noite difÃcil. “Muito difÃcil”.
Pensa que os próximos dias não vão ser fáceis, ainda não tem água, nem luz, nem sabe quando vão chegar.
Mais à frente, o Parque da Memória, em Pataias, Maceira, a cerca de 17 quilómetros de Leiria, as árvores centenárias não resistiram e encontram-se estendidas ao longo do jardim e do passeio.
Por toda a parte são visÃveis destroços. Chapas retorcidas. Sinais de trânsito de indicação de localidades tombados ou revirados. Telhados com lonas ou plásticos e pneus a tapar o vazio das telhas que voaram sem rumo.
O presidente da Junta de Freguesia de Maceira, Vitor Santos, disse à Lusa, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Maceira, onde se tinha deslocado para um ponto de situação, que a situação “é crÃtica”, reconhecendo que as pessoas “estão a sentir muitas dificuldades em recuperar as suas habitações”.
“Há pessoas em pânico a necessitar de apoio psicológico, a pedir-nos ajuda, mas não é possÃvel atender ainda a esses casos particulares”, disse, lembrando que a prioridade foi desobstruir vias, lembrando que “assim que houve água e energia as coisas puderam ser mais fáceis”.
O autarca espera que “hoje, ao final do dia”, a água possa regressar a todas as localidades da freguesia, mas é mais pessimista quanto à questão da eletricidade, frisando que “muito dificilmente” as casas terão luz nos próximos dias.
Provavelmente, “[só] dentro da próxima semana, uma vez que todos os suporte estão destruÃdos”, disse.
A grande maioria das freguesias de Leiria continua sem eletricidade e água, tendo a Lusa constatado uma corrida às gasolineiras da zona.
*** Rosa Cotter Paiva (texto), Rui Pereira (vÃdeo) e António Pedro Santos (foto), da agência Lusa ***
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