
Beirute, 20 jan 2026 (Lusa) — A Nobel da Paz Nadia Murad, antiga escrava do Estado Islâmico (EI), condenou hoje a comunidade internacional, lamentando que abandone os curdos sÃrios que estão a ser expulsos dos seus bastiões no norte do paÃs.
A coligação internacional liderada pelos Estados Unidos contra o terrorismo islâmico “confiou nas forças curdas em Rojava”, nome da região autónoma curda, “para combater e derrotar o EI”, escreveu a laureada com o Prémio Nobel da Paz de 2018 na rede X.
“Hoje, num momento crÃtico, aqueles que estiveram na linha da frente contra o mal estão a ser abandonados. O que a comunidade internacional está a fazer na SÃria — e em toda a região — está a criar o caos, e pessoas inocentes pagarão o preço.”
As declarações da ativista de direitos humanos, que foi sequestrada no norte do Iraque e mantida como escrava pelo EI em 2014 até conseguir escapar, surgem num momento em que o exército de Damasco e as Forças Democráticas SÃrias (FDS), lideradas pelos curdos, se acusam mutuamente de violações do cessar-fogo alcançado no domingo.
O entendimento, anunciado pelo Presidente de transição, Ahmed al-Sharaa, estipulava a integração de membros das FDS nas forças de segurança do Estado e a transferência das áreas no nordeste do paÃs, que a aliança comandada pelos curdos mantinha sob controlo, para instituições centrais.
No entanto, vários confrontos foram registados desse então e hoje Abdel Karim Omar, representante da administração autónoma curda em Damasco, indicou que as negociações realizadas na segunda-feira à noite com o Governo central “colapsaram completamente”.
As FDS anunciaram entretanto a retirada do campo de al-Hol, no nordeste da SÃria, onde se encontravam milhares de familiares de membros do EI.
“As nossas forças foram obrigadas a retirar do campo de al-Hol e a redistribuir-se para as proximidades de cidades no norte da SÃria que enfrentam riscos e ameaças crescentes”, afirmaram as FDS em comunicado, responsabilizando a comunidade internacional por não “assumir as suas responsabilidades” na gestão das famÃlias do EI.
Pouco antes de anunciarem a sua retirada, as FDS referiram-se a confrontos com fações “afiliadas em Damasco” perto do campo.
Por seu lado, o Exército sÃrio acusou os curdos de facilitarem a fuga dos residentes do campo ao abandonarem os seus deveres de vigilância nas instalações, situadas na provÃncia de al-Hasakah.
Segundo o Governo sÃrio, desde a noite de segunda-feira que vinha comunicando à mediação norte-americana a sua disponibilidade para aliviar a tentativa de controlo das FDS em al-Hol.
Desde segunda-feira, combatentes pró-governamentais atacaram duas prisões que albergavam prisioneiros do EI em al-Hasakah e Raqqa, resultando, num dos casos, na fuga de 120 supostos terroristas jihadistas, embora muitos deles tenham sido recapturados quando as tropas de Damasco chegaram ao local.
O Governo sÃrio e a aliança liderada pelos curdos tinham assinado um entendimento em 10 de março de 2025 para abrir uma solução para as autoproclamadas zonas autónomas no nordeste da SÃria.
Mas este processo, iniciado após a queda do regime de Bashar al-Assad há mais de um ano, no seguimento de uma operação militar de uma coligação rebelde liderada por al-Sharaa, não se concretizou.
A minoria curda assumiu o controlo de vastas áreas do norte e nordeste da SÃria durante a guerra civil no paÃs entre 2011 e 2024, incluindo campos de petróleo e gás.
Os curdos, presentes sobretudo nos territórios turco, sÃrio, iraquiano e iraniano, sofreram décadas de opressão na SÃria, onde se estima que seja constituÃda por cerca de dois milhões de pessoas numa população de 20 milhões.
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