
Praia, 14 jan 2026 (Lusa) — O desempenho do mercado de trabalho de Cabo Verde tem melhorado, desde 2016, mas há sinais que merecem atenção e debate, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentado hoje na capital, Praia, num evento do Governo.
“A taxa de desemprego caiu de perto de 15% em 2016 para 7,5% em 2024”, uma queda para quase metade, ao mesmo tempo que houve um aumento da taxa de emprego, indicou Rodrigo Garcia-Verdú, representante do fundo em Cabo Verde.
No entanto, “a taxa de desemprego mantém-se a um nÃvel ainda alto [7,5%]”, tendo em conta as taxas de crescimento económico (4,8% em 2023 e 7,2% em 2024) e as queixas de falta de mão de obra nalguns setores, como agricultura e construção civil.
Um dos motivos é “a proporção de jovens de 15 a 35 anos que não estão empregados, nem a estudar, nem em formação”, grupo denominado com a sigla inglesa NEET, referiu.
A proporção deste grupo relativamente à  população “é elevada” e é um dos pontos que merece atenção, um número “preocupante”, porque representa “um quarto” daquela faixa etária, cerca de 41 mil pessoas.
“É importante que se avance na diminuição deste grupo. O Governo tem feito muito trabalho em formação e ensino técnico, mas é importante continuar a tentar diminuir [este contingente], porque são recursos que estão disponÃveis a nÃvel nacional que não está a ser usados”, indicou Rodrigo Garcia-Verdú.
Segundo o representante do FMI, “é preciso fazer um diagnóstico do que é que está a impedir os NEET de incorporar o mercado de trabalho (…). Provavelmente, tem de haver um esforço adicional para dar formações a este grupo que permitam a sua incorporação no mercado de trabalho”.
“Ao mesmo tempo, ouvimos da parte dos empregadores a dificuldade que têm em encontrar trabalhadores. Então temos aà um problema de ‘matching'”, de fazer corresponder as competências à quilo que procuram as empresas, detalhou.
“Outro problema do mercado de trabalho em Cabo Verde é a elevada proporção de informalidade: quase metade do emprego total é informal”, representando trabalhadores excluÃdos da proteção social e sem contribuir para a sustentabilidade do sistema de previdência.
“A persistência do elevado desemprego, da inatividade entre os jovens e da informalidade pode ser explicada pela falta de qualificações e competências relevantes exigidas pelos empregadores” e requer “uma análise mais detalhada por grupos de trabalhadores de acordo com o seu nÃvel de escolaridade, para melhor compreender o problema”, sugeriu, na apresentação.
O estudo faz ainda uma relação entre emigração e a taxa de desemprego, indicando que a maioria dos emigrantes adultos na faixa etária mais produtiva (25-54) “tiveram maior probabilidade de estar empregados” no momento de emigrar, aumentando mecanicamente a taxa de desemprego.
Anna Massingue, economista do Banco Mundial, oradora no mesmo evento, referiu que há necessidade de ajustar currÃculos à realidade do paÃs, promover polÃticas de retenção de trabalhadores, do emprego feminino nos cargos mais bem remunerados e maior ligação entre as pequenas e médias empresas (PME), o coração da empregabilidade, e os mercados locais.
Noutros dados, o estudo apresentado pelo representante do FMI baseia-se numa população economicamente ativa relativamente constante, desde 2011, em torno de 225 mil pessoas.
No estudo aponta-se para uma transferência do setor primário para os setores secundário e terciário, com produtividade mais elevada.
A criação de emprego é “a prova de fogo” para a próxima década, sobretudo a nÃvel do “sul global”, que deve ter respostas “à prova de bala”, referiu o vice-primeiro-ministro com a pasta das Finanças e Economia Digital, Olavo Correia, que tomou notas durante o evento.
“Se não houver soluções sustentáveis para este desafio, estamos tramados”, acrescentou.
Ou seja, é preciso responder a um crescimento para a casa de milhares de milhões de jovens à procura de emprego e Olavo Correia apontou algumas aspirações, tais como equiparar as qualificações obtidas em Cabo Verde a padrões internacionais e aumentar os nÃveis de produtividade e crescimento económico do paÃs, para suportar um aumento da remuneração média.
“Temos de ter sentido de urgência”, concluiu.
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