
Lisboa, 06 dez 2025 (Lusa) — Diferentes fases da vida cruzam-se no espetáculo “A esta hora, na infância neva”, do encenador e coreógrafo Victor Hugo Pontes com a Companhia Maior, que assinala os 15 anos daquela companhia e se estreia no domingo, em Lisboa.
A Companhia Maior, fundada em 2010, é um projeto da área das artes performativas desenvolvido com intérpretes que já atingiram a ‘idade maior’. Poderia por isso pensar-se que em “A esta hora, na infância neva” participassem apenas artistas com mais de 60 anos, mas não.
Na criação deste espetáculo, além de sete intérpretes da Companhia Maior, Victor Hugo Pontes decidiu envolver também dois bailarinos e um músico com idades na faixa dos 20/30 anos, e seis crianças, com idades entre os sete e os dez anos.
“A ideia não foi ter diferentes gerações em palco, mas sim diferentes etapas de uma mesma pessoa. Como se pudéssemos ter a relação física daquilo que são os corpos em diferentes momentos da vida de uma pessoa”, explicou o encenador à Lusa entre ensaios.
Nos espetáculos que faz, Victor Hugo Pontes gosta de dividir a criação com os intérpretes que dirige, partilhando ideias e recebendo propostas. E “A esta hora, na infância neva” não foi exceção.
Para explicar o processo, o coreógrafo recorreu a uma “imagem muito bonita”, partilhada por um dos intérpretes do espetáculo, Carlos Nery, “que tem 92 anos, uma experiência muito grande no teatro, e participou em quase todas as produções da companhia”.
“Um dia virou-se para mim e disse: ‘É curioso, porque com os outros encenadores ou diretores começamos com a cebola, e vamos descascando e percebendo as camadas que tem. No teu caso é o contrário, começas com o interior da cebola e depois é que vamos percebendo que camadas a cebola tem, até termos a forma da cebola'”, contou.
Victor Hugo Pontes partiu da ideia de exploração física: “Quais são as diferenças, os contrastes, o que se ganha, o que se perde, com a idade”.
“Do lado físico mesmo do próprio corpo, também visual. Mas depois interessava-me construir uma outra narrativa e uma outra projeção”, referiu.
Durante o processo os intérpretes mais velhos foram partilhando memórias, tanto da infância como do início da vida adulta, a fase em que se encontram os três artistas mais jovens.
“Foi também a partir dessas memórias que fomos construindo o espetáculo, com uma inspiração grande na peça ‘Azul longe nas colinas’ [do britânico Dennis Potter] e num livro de memórias da [norte-americana] Patti Smith chamado ‘Just Kids'”, disse.
O livro de Patti Smith, contemporânea dos mais velhos, “serviu muito de inspiração aos mais novos”, porque reporta a memórias dos tempos de jovem adulta da cantora, compositora e poetisa, de 78 anos.
“É como se os eles [os mais novos] estivessem a viver a vida deles [os mais velhos], ou os simbolizassem na sua juventude, mas ao mesmo tempo não sabemos quem está a olhar para quem. Se são os mais novos que estão a olhar para si quando forem mais velhos, se são os mais velhos que estão a olhar para trás a ver o que conseguiam fazer, ou o que eram, quando tinham entre 20 e 30 anos”, afirmou.
Para Victor Hugo Pontes, “uma das belezas deste espetáculo é exatamente isso”: “percebermos que estes corpos já foram ágeis, já foram crianças, já se mexeram, já dançaram, já interpretaram”. “Que já tiveram toda uma agilidade que, de repente, quando os encontramos na idade maior ou na velhice, achamos sempre que foram assim”, defendeu.
No espetáculo são projetados vídeos, com ‘close-ups’ dos rostos dos intérpretes, “para se ver este contraste do que é um rosto com 90 anos ou 80 e um rosto com 20”, a forma como “o tempo também vai marcando, fisicamente e na intensidade com que se interpreta, se sente as coisas e como se fazem”.
“E o próprio tempo que damos a fazer, porque as coisas adquirem um outro tempo, uma outra velocidade, com a velhice, porque as coisas começam a ficar mais lentas, de alguma forma”, referiu Victor Hugo Pontes.
Esse confronto, entre o que se é e o que se foi, está também na projeção de fotografias dos intérpretes maiores quando eram mais novos.
“Aí há uma identificação bastante grande, no sentido de que todos temos um passado, todos viemos de algum lugar. E isso para mim é também uma das forças deste espetáculo”, disse.
Embora esta seja a primeira vez que dirige a Companhia Maior, Victor Hugo Pontes já tinha tido um contacto com o projeto em 2013, enquanto assistente de encenação de Nuno Cardoso em “A visita da velha senhora”.
O processo de criação e ensaios tem sido “muito prazeroso”.
“Diverti-me muito com os mais velhos, e mesmo com os mais novos. Não tanto as crianças, porque têm uma participação muito simbólica, mas muito importante porque representam a infância de uma pessoa. Com os jovens adultos e os mais velhos foi muito bonito, porque existiu muito contágio, muita partilha, muita inspiração de parte a parte”, partilhou.
Victor Hugo Pontes acredita que a dada altura do processo “os mais velhos ao verem os mais novos reviram-se muito no que conseguiam fazer, de como é que eram ou como se inspiravam”.
“E acho que na cabeça deles ainda continuam a mexer-se como os mais novos, apesar de o corpo já ser outro. Um corpo mais velho está cheio de memória, está esculpido pelo tempo”, referiu.
“A esta hora, na infância neva”, que são dois versos ‘roubados’ a Manuel António Pina, estreia-se no domingo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, onde terá apresentações também na segunda-feira, na quarta-feira e na quinta-feira.
O espetáculo estará em digressão em 2026 com datas em Ponta Delgada (21 de fevereiro, no Teatro Micaelense), Barcelos (21 de março, no Theatro Gil Vicente), Vila Real (26 de setembro, no Teatro Municipal), Loulé (09 de outubro, no Cineteatro Louletano) e Braga (13 de novembro, no Theatro Circo).
*** Joana Ramos Simões (texto) e Manuel de Almeida (fotos), da agência Lusa ***
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