
João Pessoa, Brasil, 30 nov 2025 (Lusa) — O rapper brasileiro MC Marechal denunciou no sábado que jovens negros periféricos têm sido chacinados ao longo dos anos, numa altura em que se assinala pouco mais de um mês da megaoperação no Rio de Janeiro que provocou 121 mortes.
“Sempre aconteceu essa chacina. A gente está vendo o reflexo 2025, só. Mas sempre foram assassinados jovens negros da periferia”, disse aos jornalistas durante o 2.º Festival Literário Internacional da ParaÃba (FliParaÃba), que decorreu até sábado na cidade brasileira de João Pessoa.
MC Marechal, de 44 anos, considerado um dos pioneiros do género Underground Hip Hop no Brasil, sendo membro fundador do grupo Quinto Andar, sublinhou ser “muito triste” estar constantemente a falar sobre a morte de mais jovens negros das comunidades, mas que a realidade é essa mesma. “Porque é natural, infelizmente”, frisou.
De acordo com dados da Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do CESec as autoridades policiais mataram 4.068 pessoas em 2024 em nove estados brasileiros (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, PiauÃ, Rio de Janeiro e São Paulo).Â
Do total, 86,2% dos casos eram pessoas negras.
“Tudo cai para a periferia com menos força. A educação é menor, e aà a violência é maior, e o destrato é maior”, denunciou o rapper brasileiro.
Sobre as crÃticas que parte da sociedade faz sobre a linguagem utilizada no rap periférico e de que essa forma de arte é uma apologia ao crime, MC Marechal respondeu que os artistas apenas denunciam o que vivem.
“A gente está denunciando. Às vezes contando uma história, à s vezes coisas que vivemos mesmo e que não queremos viver mais. Quando a gente fala, muitas vezes é uma busca, ao mesmo tempo um alerta, ao mesmo tempo uma reflexão”, afirmou.
“Se a gente está denunciando a injustiça quer dizer que a injustiça já foi feita”, denunciou o artista.
Na sexta-feira, autoridades brasileiras anunciaram a detenção de cinco agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) que participaram no final de outubro na operação em favelas no Rio de Janeiro que fez pelo menos 122 mortos.
As investigações basearam-se nas imagens obtidas pelas câmaras corporais usadas pelos agentes durante a megaoperação, na qual participaram 2.500 polÃcias entre 28 de outubro e a madrugada do dia 29.
De acordo com a análise das imagens, foram “identificados indÃcios de cometimento de crimes militares durante o serviço”.
Embora o comunicado da PolÃcia Militar não especifique que indÃcios foram observados, os meios de comunicação locais mencionaram que um dos detidos teria roubado uma espingarda durante a operação, com a intenção de a revender a grupos criminosos.
No comunicado, a PolÃcia Militar afirmou que não tolera “qualquer falta ou crime” cometido por um dos seus membros e que sancionará “rigorosamente” os envolvidos, caso se confirmem tais atos.
A megaoperação, que deixou mais de uma centena de mortos — incluindo cinco polÃcias – e resultou na detenção de 117 pessoas apontadas como ligadas a organizações criminosas, visava capturar importantes lÃderes do Comando Vermelho, a maior e mais antiga organização criminosa da cidade, com ramificações em todo o paÃs.
O Presidente brasileiro, Lula da Silva, criticou a operação policial, coordenada pelo Governo do Rio de Janeiro, classificando-a como “desastrosa” e “uma matança”.
O primeiro relatório elaborado pelo Ministério Público, enviado ao Supremo Tribunal Federal, indicou que dois cadáveres apresentavam “lesões atÃpicas” que não correspondem a confrontos armados convencionais.
Um dos mortos tinha marcas de tiros à queima-roupa e um segundo corpo foi decapitado.
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*** A Lusa viajou para João Pessoa a convite do FliParaÃba ***
MIM // JNM
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