
Lisboa, 26 nov 2025 (Lusa) — A fadista Raquel Tavares regressa “ao berço que é o fado tradicional” com o álbum “Deles por Mim (e à Antiga)”, a sair sexta-feira, depois de uma ausência de cerca de cinco anos dos estúdios.
“Este álbum surge porque sentia imensa vontade de cantar para as pessoas, e acima de tudo de voltar a casa, ao berço onde fui criada que é o fado tradicional”, disse a fadista à agência Lusa.
A intérprete afirmou que este álbum corresponde à necessidade de se reencontrar com a fadista que é, embora nunca o tenha deixado de ser, como sublinhou em entrevista à Lusa: “Nunca se deixa de ser fadista”.
Raquel Tavares, de 40 anos, começou a cantar fado ainda menina, tendo tido contacto com nomes como Fernando Maurício (1933-2003) ou Filipe Duarte. A criadora de “Meu Amor vem de Longe” conta cerca de 30 anos de carreira, datando de 1999 o seu primeiro álbum, “Porque Canto Fado”.
“Eu precisei de um tempo, de um espaço na vida, como me recordo, de ser sempre fadista, artista, e uma pessoa de palco. Não cheguei a zangar-me com o fado nem com nada, nem com a indústria [da música]. Este CD não vem com essa carga”, afirmou.
Neste álbum, Raquel Tavares aborda o universo masculino, fados vocacionados para vozes masculinas e que gostava de cantar, mas que “os mais velhos” não a deixavam por entenderem não ser adequado.
Agora, entende que já pode e decidiu escolher gravar “a poesia destinada aos homens”.
Do alinhamento fazem parte fados como “Mulher Deixada” (Ricardo Galeno), “Por Morrer uma Andorinha” (Frederico de Brito/Américo Santos/Francisco Viana) ou “Trigueirinha” (António Vilar da Costa/Jorge Fernando).
“Eu cresci de forma muito regrada e de acordo com todas as particularidades e regras que o meio do fado tradicional me trouxe, portanto, era-me vetado uma série de fados que tive de esperar para cantar, porque os antigos não me deixavam”, disse.
“Na verdade, não se trata, necessariamente, do género, que está todo no masculino, eu sei disso, mas trata-se da poesia dos homens às mulheres, que eu não podia cantar, por exemplo ‘Amor é água que corre’ ou ‘Cravo de S. João’, fados pelos quais fui sempre muito apaixonada, mas diziam-me ‘não, querida, este não podes cantar que é fado de homem'”, contou à Lusa.
“Isso deixava-me muito frustrada porque eu só queria cantar a poesia, não necessariamente o género, a poesia, as imagens, que são belíssimas, do poeta que escreve à mulher, que é um ser muito bonito de se cantar”.
Raquel Tavares considerou que já tinha “a validação daquela geração mais antiga” da qual foi “sempre tão devota”.
“Uma geração à qual presto muito reverência, mas a maioria já partiu, e já quase que a antiga sou eu”, disse.
A fadista gravou “sem nenhuma retificação, sem picagem ou correções” dez fados, entre eles “A Viela” (Guilherme Pereira da Rosa/Alfredo Marceneiro).
“Senti-me na liberdade de cantar o que me apetecia, e então fui cantar os fados dos homens”, sentenciou.
Todos os fados gravados fazem parte dos repertórios de intérprete de referência como Alfredo Marceneiro (1891-1982), Tristão da Silva (1927-1978) ou Carlos do Carmo (1939-2021).
“Eu não fiz uma ode aos intérpretes, eu fiz, sim, uma ode à poesia masculina, mas é claro que todos os fados são de referências muito presentes na minha vida”, esclareceu a intérprete.
“Eu permiti-me fazer versões mais à minha semelhança, mas com uma fortíssima referência de cada um deles, isso é um facto”, atestou.
No álbum, a fadista é acompanhada por diferentes trios de músicos, um reflexo da sua carreira, quer em estúdio quer em espetáculos, desde os seus primeiros acompanhadores aos que a acompanham atualmente.
Esta escolha é justificada por uma vontade de “diversidade musical que existe também nas fadistices”, referindo que os músicos que acompanham “também fazem o fadista, e a sua interpretação”.
Para Raquel Tavares, “a forma de cantar é sempre diferente”, dependendo dos músicos que acompanham, “mas é claro que há uma matriz interpretativa, mas a elasticidade vem com os músicos que acompanham”.
A fadista vai apresentar o mais recente álbum no próximo dia 05 de dezembro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, ao qual se referiu como a sala da sua vida, apesar de ter já pisado tantas outras grandes salas.
“Vou fazer o Coliseu com que sempre sonhei, no centro, na arena, um concerto 360 graus, com as pessoas muito próximas, de maneira a fazê-las sentir-se incluídas naquela noite, que nada mais é que uma noite de fado, não é um espetáculo com muitos malabares, mas sim despretensioso, vou tentar recriar o universo em que cresci e do qual tenho muitas saudades”.
Neste espetáculo Raquel Tavares é acompanhada pelo trio Pedro Viana, Bernardo Viana e Francisco Gaspar e vai convidar também para a acompanhar Custódio Castelo, Jorge Fernando e a dupla Ângelo Freire e Diogo Clemente.
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