Jerusalém, Israel, 11 nov 2025 (Lusa) — O Exército israelita indicou hoje que os membros do movimento islamita palestiniano Hamas encurralados em Rafah, no sul da Faixa de Gaza sob controlo israelita, serão capturados ou eliminados, até ordem em contrário do Governo.
“A posição geral do Exército em relação aos terroristas que operam para lá da linha amarela é agir contra eles, seja capturando-os ou eliminando-os”, declarou numa videoconferência o porta-voz militar para a imprensa estrangeira, Nadav Shoshani.
“Os terroristas que operam para lá da linha amarela (de retirada das tropas israelitas) perpetraram ataques e mataram três dos nossos soldados, pelo que devemos atuar para nos defendermos e enfrentar os terroristas. [Mas] qualquer que seja a decisão tomada pela nossa liderança, nós acatá-la-emos e fá-la-emos cumprir”, afirmou.
Shoshani referia-se aos três soldados mortos durante dois dias de cessar-fogo em Rafah, alegadamente por combatentes do Hamas, segundo o Exército.
O Hamas negou qualquer envolvimento, alegando não ter controlo sobre os seus membros no território controlado por Israel.
No domingo, o braço armado do Hamas afirmou em comunicado que os seus combatentes entrincheirados na região de Rafah não se renderiam e instou os mediadores a encontrarem uma solução antes que isso afetasse o cessar-fogo em vigor há um mês, apesar das repetidas violações.
Embora não tenha sido divulgada qualquer informação oficial sobre a reunião de segunda-feira de Jared Kushner, genro do Presidente norte-americano, Donald Trump, com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o enviado da Casa Branca está a tentar mediar a crise e garantir a passagem segura dos combatentes do Hamas em troca da sua deposição das armas, segundo fontes anónimas citadas pela imprensa local.
De acordo com uma fonte próxima de Netanyahu hoje citada pela agência de notícias espanhola EFE, o chefe do Governo israelita “não se comprometeu com os norte-americanos a libertar os terroristas de Rafah”.
Estima-se que dezenas de combatentes do Hamas, ou mesmo algumas centenas, como estimou hoje Shoshani, estejam escondidos em Rafah, que está sob total controlo do Exército israelita e onde ocorreram incidentes com as tropas israelitas durante o cessar-fogo.
Está em vigor desde 10 de outubro um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, a primeira fase de um plano de paz proposto por Donald Trump, após negociações indiretas mediadas pelo Egito, Qatar, Estados Unidos e Turquia.
Esta fase da trégua envolveu a retirada parcial do Exército israelita para a denominada “linha amarela” demarcada pelos Estados Unidos, linha divisória entre Israel e a Faixa de Gaza, a libertação de 20 reféns vivos em posse do Hamas e de 1.968 prisioneiros palestinianos.
O cessar-fogo pretende pôr fim a dois anos de guerra em Gaza, desencadeada pelo ataque de 07 de outubro de 2023 do Hamas a Israel, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 sequestradas.
A retaliação de Israel fez pelo menos 69.182 mortos – entre os quais mais de 20.000 crianças – e 170.694 feridos, na maioria civis, segundo números hoje atualizados (com as vítimas das quebras do cessar-fogo por Israel) pelas autoridades locais, que a ONU considera fidedignos.
Fez igualmente milhares de desaparecidos, soterrados nos escombros e espalhados pelas ruas, e mais alguns milhares que morreram de doenças e infeções e fome, causada por mais de dois meses de bloqueio de ajuda humanitária e pela posterior entrada a conta-gotas de mantimentos, distribuídos em pontos considerados “seguros” pelo Exército, que regularmente abria fogo sobre civis famintos.
Há muito que a ONU declarou o território em grave crise humanitária, com mais de 2,1 milhões de pessoas numa “situação de fome catastrófica” e “o mais elevado número de vítimas alguma vez registado” pela organização em estudos sobre segurança alimentar no mundo, mas a 22 de agosto emitiu uma declaração oficial do estado de fome na cidade de Gaza e arredores.
Já no final de 2024, uma comissão especial da ONU acusara Israel de genocídio em Gaza e de usar a fome como arma de guerra, situação também denunciada por países como a África do Sul junto do Tribunal Internacional de Justiça, e uma classificação igualmente utilizada por organizações internacionais de defesa dos direitos humanos.
ANC // SCA
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