Manifestações e violência deixaram rasto de dor no último ano em Moçambique

Maputo, 03 nov 2025 (Lusa) – A vida de Aurora “nunca mais foi a mesma” após o marido ter morrido nas manifestações pós-eleitorais em Maputo, sentimento partilhado com milhares de famílias, apesar de casos de superação, como um bebé nascido de uma mãe baleada.

“Saiu para trabalhar e já não voltou mais”, começa por contar Aurora Mhula, 29 anos, em conversa com a Lusa, entre pausas para tentar segurar as lágrimas, enquanto a dor vence: “É alguém com que partilhamos uma vida, dividimos tudo e um pouco e não é fácil você do nada saber que a pessoa com quem você estava a viver já não há de voltar”.

O dia era 09 de janeiro e o marido, Carlos Mhulua, saiu cedo para mais um turno numa estância hoteleira da capital. Pelo caminho foi para o aeroporto internacional de Maputo, para a receção ao candidato presidencial Venâncio Mondlane, que voltava a Moçambique, ao fim de dois meses e meio fora, alegando receios com a sua segurança.

O candidato, que contestou os resultados eleitorais, tinha apelado à receção junto ao aeroporto, para o que dizia ser a sua “tomada de posse”. A um quilómetro do aeroporto, na praça dos Heróis Moçambicanos, numa área de forte presença policial, Carlos Mhulua foi atingido no pescoço por uma bala, acabando por morrer pouco depois no Hospital Central de Maputo (HCM).

Aurora só soube horas depois, por um colega de trabalho, numa manhã em que várias pessoas morreram na cidade, após cargas da polícia para dispersar apoiantes de Mondlane.

“Infelizmente eu só soube depois”, conta a viúva, que acabava de se mudar para a casa nova com o marido, um casamento que levava quatro anos, além de 11 anos de namoro.

“Tenho tentado aceitar, procurar com que essas feridas sarem”, diz a jovem viúva, que agora carrega no mesmo dedo duas alianças, a sua e a do marido falecido.

Empregada como confeiteira numa pastelaria nos arredores de Maputo, conta que é uma forma de se reerguer e com o que ganha tenta concluir a casa de ambos, que ainda estava em construção, para continuar o maior sonho de Carlos, enquanto pede por justiça para os mortos desde outubro. 

“Não só por mim, mas por todas aquelas famílias que foram enlutadas naquela época, que aconteça alguma coisa, pelo menos para ressarcir. Tudo bem que os nossos entes não hão de voltar, mas acho que sabermos que essas pessoas estão a pagar de alguma forma vai ser importante para todos nós, pelo menos os nossos entes queridos vão descansar em paz”, sublinha.

As manifestações pós-eleitorais em Moçambique arrancaram dois dias depois do duplo homicídio, no centro de Maputo, de Elvino Dias e Paulo Guambe, na noite de 18 para 19 de outubro, ambos apoiantes do candidato Venâncio Mondlane. Segundo a plataforma Decide, morreram 411 pessoas desde então no contexto dos protestos, 102 dos quais em Maputo, que contou 970 feridos até meados de março.

Em 23 de novembro de 2024, Almeida João saiu à rua, na Matola, arredores de Maputo, para se juntar a um grupo de populares para pedir “uma mudança” no país, sem imaginar que acabaria por entrar numa jornada que o traria de volta à casa, aos 27 anos, duas semanas depois, sem a perna esquerda.

Durante a manifestação na rua, segundo conta, apareceu a Unidade de Intervenção Rápida (UIR), da polícia, a disparar. Almeida foi um dos alvejados na perna e, de seguida, levado ao hospital da Machava, por onde ficou duas horas a derramar sangue, sem os primeiros socorros.

“Depois chegou o carro [a ambulância] que vinha do HCM, subimos nas duas ambulâncias” e no caminho “morreu uma das pessoas, enquanto íamos”, recordou à Lusa, acrescentando que desmaiou pouco após chegar ao HCM . 

Foi levado para uma sala de reanimação, onde ficou todo o dia, seguindo-se uma semana quase sem atendimento, queixando-se por isso de negligência médica, que levou à amputação da perna.

Veio depois o peso na consciência e a vergonha, além da preocupação com o sustento para si, para a namorada e a filha.

Antes trabalhava como serralheiro e mecânico, que dava para comer e pagar a renda de casa. Hoje, impossibilitado de seguir a vida com normalidade, regressou com a filha para a casa dos pais, onde passa o tempo sentado à sombra de uma árvore. 

“Não está a ser nada fácil. Muito complicado mesmo”, conta, assumindo que foi alvejado porque fez o que era preciso para que alguma coisa mudasse no país.

“Não me arrependo de ter estado naquele lugar a dar uma mão para que o país possa mudar naquilo que são as circunstâncias daquilo que nós não queremos. Então, eu diria ‘vamos para frente, para que as coisas possam mudar’, porque, na verdade, precisamos que o nosso Moçambique mude”, afirma.

 Reconhece a dor em que vive, mas também que é “necessário” algumas “perdas” para que as coisas “aconteçam”, acreditando ainda que um dia as condições políticas e sociais de Moçambique vão melhorar.

Moçambique viveu até março período de forte agitação social, de violência acentuada, entre barricadas, saques e constantes confrontos nas ruas com a polícia.

Contudo, para se ser vítima não era necessário estar diretamente envolvido nas manifestações, como Carlos Mhula ou Almeida João. Tina Cossa, de 22 anos, diz ser prova disso. Então grávida de poucas semanas, foi atingida, também, no pé, por uma bala igualmente não sabe disparada por quem.

Conta que estava a sair de casa, no Zimpeto, com um grupo de amigas, com destino a casa do namorado, no bairro do Bagamayo, Maputo: “De repente, nós só ouvimos um tiro. Como é que entrou no meu pé eu não sei”.

“Assustámo-nos e todas correram”, recorda ainda, explicando que após ter sido atingida ficou caída numa cova por alguns minutos. Seguiram-se três meses no hospital, internada, com a preocupação sobre a vida da criança.

“Tenho limites para fazer as coisas. Mesmo sentar, não posso sentar muito tempo”, explica, admitindo que também caminhar “é um problema muito sério”.

Admite o desgosto com o que viveu, e com o país, enquanto volta ao pensamento do dia em que foi atingida: “Ali [local do tiro] eu disse ‘e o meu bebé, o que vai ser dele'”.

Apesar das sequelas na mobilidade, hoje carrega o filho bebé nos braços.

Chama-se Win (vencer), em homenagem à “guerra” que o filho precisou enfrentar e vencer ainda na barriga. 

*** Samuel Comé (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***

SYCO // VM

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