Juan Carlos I revela simpatia por Franco e reivindica papel na democracia em livro de memórias

 Madrid, 02 nov 2025 (Lusa) — O rei emérito de Espanha, Juan Carlos I, prepara-se para publicar umas memórias em que pela primeira vez dá a sua versão sobre o golpe falhado de 1981 e manifesta respeito e até simpatia pelo ditador Francisco Franco.

O livro de memórias, com o título “Reconciliação”, será publicado em França na quinta-feira e, semanas mais tarde, em Espanha, mas encheu já nos últimos dias páginas e programas dos meios de comunicação social espanhóis, por causa de excertos que foram sendo revelados por jornais e revistas francesas.

Juan Carlos de Borbón abdicou em 2014 e desde 2020 vive fora de Espanha, nos Emiratos Árabes Unidos, na sequência de escândalos relacionados com a origem da sua fortuna pessoal e com a sua vida amorosa.

Escolheu publicar as memórias — algo muito raro num monarca ou ex-monarca — em novembro de 2025, num momento em que Espanha celebra 50 anos do fim da ditadura e da sua própria coroação.

Juan Carlos I foi o protagonista da transição espanhola para a democracia, mas hoje tem a sua popularidade arrasada no seu país por causa das polémicas, que o levaram a abdicar e a exilar-se.

As celebrações oficiais dos 50 anos do fim da ditadura e da restauração da monarquia em Espanha não contarão com a presença de Juan Carlos I e, no livro de memórias, o ex-monarca parece, precisamente, querer reivindicar o papel que teve na transição para a democracia, depois de, em 22 de novembro de 1975, ter recebido todos os poderes do ditador, que havia morrido dois dias antes.

“A democracia espanhola não caiu do céu! Quis a democracia desde o princípio, e o meu livro conta esta história”, afirmou, numa entrevista ao Le Figaro na semana passada.

Juan Carlos I tornou-se no sucessor de Franco por escolha do ditador e o agora rei emérito confessa no livro de memórias, segundo os excertos publicados pela imprensa francesa, que teve “relações pessoais e frequentes” com o general que governou Espanha de forma autoritária durante 39 anos.

“Respeitava-o enormemente, apreciava a sua inteligência e o seu sentido político. (…) Nunca deixei que ninguém o criticasse à minha frente”, admitiu Juan Carlos I em “Reconciliação”, escrito com a autora francesa Laurence Debray.

“Nada o pôde destruir, nem sequer desestabilizar, o que, num período tão longo, supõe um grande desafio”, disse ainda sobre o ditador.

Juan Carlos de Borbón relata que na última conversa com Franco este lhe pegou na mão e lhe disse: “Alteza, só lhe peço uma coisa: mantenha a unidade do país”.

“Essa foi a sua última vontade. Não me pediu que preservasse o regime como estava ou os princípios do Movimento Nacional [de Franco]. Portanto, tinha as mãos livres para iniciar reformas desde que a unidade de Espanha não fosse posta em causa. Tive a impressão de que me dava liberdade de atuar”, acrescentou.

Ao Le Fígaro disse mesmo que Franco o fez Rei “para criar um regime mais aberto”.

“Dei a liberdade aos espanhóis ao instaurar a democracia, mas nunca pude beneficiar dessa liberdade para mim”, considerou Juan Carlos I, num livro em que diz que “ainda hoje” tem de se conformar com “os desejos da Casa Real e do Governo” de Espanha.

Pelo menos nos excertos já conhecidos, manifesta amargura com o país e em relação ao filho, Felipe VI, atual Rei de Espanha, de quem diz que lhe “virou as costas por dever” e, embora entenda que tenha de manter “uma posição pública firme”, lhe custa “vê-lo tão insensível”.

Um dos episódios que transformou Juan Carlos I num protagonista ou até herói da transição espanhola para a democracia foi a tentativa falhada de golpe de 23 de fevereiro de 1981, pelo qual foram condenados dois generais e um coronel da Guarda Civil (similar à GNR em Portugal), que sequestrou durante 17 horas o Governo e os deputados espanhóis no parlamento.

Para o fracasso do golpe foi considerado determinante a declaração pública de Juan Carlos I, pela televisão, a condenar os golpistas e a manifestar apoio à democracia.

No entanto, em anos posteriores e mais recentes, o real papel de Juan Carlos I neste episódio foi questionado por vários protagonistas, que sugeriram ou chegaram a afirmar que os golpistas tinham inicialmente o apoio do Rei. O objetivo seria formar um Governo liderado por um dos generais condenados, Alfonso Armada, que havia sido tutor do monarca e chefe da sua Casa Real.

Juan Carlos I aborda pela primeira vez publicamente este episódio no livro de memórias, afirmando que foi traído por Alfonso Armada.

“Não houve um golpe, mas três. O golpe de Tejero [coronel da Guarda Civil], o golpe de Armada e o golpe dos políticos próximos de Franco. Alfonso Armada esteve ao meu lado 17 anos. Gostava muito dele e traiu-me. Convenceu os generais de que estava a falar em meu nome.”, relatou.

No livro, Juan Carlos I assume que cometeu erros, tanto na vida privada como na pública, como ter aceitado, em 2008, 100 milhões de dólares do Rei da Arábia Saudita.

“É um presente que não soube rejeitar, um erro grave”, afirmou na obra, explicando que pensou usar esse “donativo generoso por parte de um irmão” na reforma, quando estivesse “longe da vida oficial espanhola”.

“Sou o único espanhol que não recebe uma pensão depois de quase quarenta anos de serviços”, sublinhou o rei emérito de Espanha nas suas memórias, a quem o filho retirou qualquer subvenção pública, tendo renunciado também a qualquer herança do pai.

Os 50 anos da restauração da monarquia em Espanha e o papel que a instituição teve na democratização do país serão celebrados com um programa de iniciativas previstas para 21 e 22 de novembro divulgado na sexta-feira pela Casa Real que exclui Juan Carlos I e que inclui uma homenagem pública a Sofia de Borbón, mulher do ex-monarca, mãe de Felipe VI e hoje rainha emérita, que vive em Madrid, separada do marido.

Juan Carlos I não participará nas cerimónias públicas, mas foi convidado para um almoço com a família real, no dia 22, sábado, coincidindo com os 50 anos da sua coroação, que terá “caráter estritamente familiar e totalmente privado”, disseram fontes da Casa Real, que asseguram desconhecer se o antigo monarca estará presente.

Em janeiro, quando o Governo espanhol arrancou com um programa de 12 meses para comemorar os 50 da democracia no país, o executivo admitiu a presença de Juan Carlos de Borbón nas celebrações, atendendo ao “papel fundamental” da monarquia, mas remeteu sempre a decisão para a Casa Real.

Os processos judiciais em Espanha que envolviam Juan Carlos de Borbón foram arquivados em 2022, apesar de o Ministério Público confirmar a existência de indícios de delitos fiscais, branqueamento de capitais e subornos.

No entanto, segundo o Ministério Público, vários possíveis crimes estavam prescritos e outros teriam sido cometidos quando Juan Carlos I era Rei e, por isso, protegido pela “inviolabilidade” que lhe concedia a Constituição ao ser chefe de Estado.

 

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