Culturgest expõe desenhos “secretos”, esculturas cibernéticas e vídeo ´web art´

Lisboa, 23 out 2025 (Lusa) — Os desenhos “secretos” de projeto de Carlos Nogueira, as esculturas cibernéticas feitas de objetos desconstruídos de Alexandra Bircken e os vídeos ‘web art’ da artista biarritzzz vão estar em exposição a partir de sexta-feira na Culturgest, em Lisboa.

As três exposições — “Pensamentos. em papel”, de Carlos Nogueira, “SomaSemaSoma”, da artista alemã Alexandra Bircken, e “KaOuS”, da brasilieira biarritzzz — estarão patentes até 01 de fevereiro de 2026, as duas primeiras, com a de ‘web art’ a prolongar-se até 09 de novembro.

Na galeria do edifício dedicada às exposições que partem da ideia de livro é inaugurada uma mostra “de uma parte bastante secreta” da produção de Carlos Nogueira, disse o programador de artes visuais da Culturgest, Bruno Marchand, numa visita de imprensa com a presença do artista português nascido em Moçambique, em 1947.

No pequeno espaço foi reunido um conjunto alargado de “desenhos de projeto” – designação que deu a essas obras – sobretudo os produzidos na passagem para a década de 1980: “São registos de pensamento, de processo de criação de performances antigas. Não sou escritor e não sou poeta, mas gosto muito das palavras”, comentou Carlos Nogueira.

Entre os projetos desenvolvidos — cujos passos são descritos em desenhos e frases orientadoras — recordou um exibido na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, onde apresentou 99 pombas de madeira com rodas que pintou de branco, e a haste que segura este brinquedo tradicional de diferentes tons de azul.

“As pombas eram todas diferentes, assim como nós. Cada um de nós é um universo”, disse o artista que tem vindo a desenvolver, desde o início do seu percurso, esboços para as suas esculturas ou performances, mas também um leque variado de expressões gráficas, desde cadernos, pautas, folhas de agenda e outro tipo de suportes associados a atividades burocráticas.

Ocupando várias salas da área expositiva da Culturgest estará “SomaSemaSoma”, de Alexandra Bircken, nascida na Alemanha, em 1967, com um percurso inicialmente ligado ao mundo da moda, no qual muito do seu trabalho se inspira, sobretudo no uso de tecidos para as suas obras que exploram analogias entre o corpo humano e a máquina.

Com curadoria de Bruno Marchand e Selma Meuli, a exposição apresenta uma seleção de obras criadas ao longo das últimas duas décadas, incluindo várias concebidas especificamente para a presença em Lisboa, nomeadamente uma série de postes de sinalização em cerâmica.

A desconstrução de objetos do quotidiano e dos seus materiais, como motas em tamanho real, fatos de automobilismo, uma metralhadora, cabos de máquinas entretecidos para criar têxteis e fios de lã usados para criar formas orgânicas revelam o interesse da artista pelas questões relacionadas com a identidade, a fragilidade e as limitações do indivíduo.

O método de eleição do trabalho de Alexandra Bircken é a colagem, e é através da combinação de uma ampla variedade de materiais e de técnicas que a artista testa os limites entre os seres humanos e os ambientes construídos, segundo a curadoria.

A exposição inclui um conjunto inédito de vitrines que ilustra este processo de referenciação e “montagem” através da apresentação de fotografias, desenhos e materiais recolhidos ao longo dos últimos trinta anos, e que a artista dispõe como uma narrativa pessoal.

Alexandra Bircken “tanto tem necessidade de reunir objetos e ligá-los como de os desconstruir e dissecar, muitas vezes ligando-os às ideias de poder, aceleração e progresso da vida atual”, descreveu Bruno Marchand.

O título da mostra deriva dos étimos gregos soma, que significa “corpo”, e sema, que significa “signo”: “A artista explora esta semiótica dos corpos, subvertendo arquétipos relacionados com o género e o poder. As suas esculturas surgem como presenças híbridas cuja verticalidade, forma, escala e volume sugerem corpos, ou partes deles, análogos aos nossos, estabelecendo connosco ora relações de identificação, ora de diferença”.

Em “KaOuS”, exposição da artista biarritzzz, nascida no Brasil, em 1994, “são exploradas linguagens visuais da cultura da internet e as lógicas de apropriação e remix da ‘web art’, para criar contra-narrativas em que ética, estética e política se entrelaçam como campos equivalentes numa disputa cosmológica de realidades”, descreveu.

A criadora apresenta uma nova interpretação para a música “kAPTURA oU sURTAH”, integrada no seu álbum “Eu Não Sou Afrofuturista” (2020), através do que diz ser um “filme expandido” no qual procura desestabilizar a crença nos crescimentos económico e material infinitos.

“O meu objetivo com este trabalho é, através da estética de memes, dos videojogos e do humor, desestabilizar o conceito ocidental de progresso”, disse a artista durante a visita à exposição.

A artista foi selecionada pela plataforma Contemporânea no âmbito da Comissão Atlantic 2025, projeto anual de âmbito internacional que opera nos domínios da criação, programação e edição, e que neste projeto tem a direção artística de Celina Brás e coordenação de Paula Ferreira.

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