
Pemba, Moçambique, 10 out 2025 (Lusa) – O governador da província moçambicana de Cabo Delgado, Valige Tauabo, disse hoje que os autores de ataques na região devem usar o diálogo nacional inclusivo, que decorre no país, como oportunidade para manifestar as suas insatisfações.
“Com o Diálogo Nacional Inclusivo, os terroristas têm mais uma oportunidade para vir nos dizer onde está o problema. Se há quem se acha que está ferido de alguma coisa é o momento de haver esse diálogo, se forem moçambicanos, tragam esse assunto à mesa para serem compreendidos e todos estejamos unidos”, disse Valige Tauabo, numa reunião popular no distrito de Mocímboa da Praia.
O Diálogo Nacional Inclusivo resulta de um acordo com os partidos políticos moçambicanos prevendo reformas e a pacificação do país após a contestação e violência pós-eleitoral.
Na intervenção, o governador manifestou solidariedade à população que nos últimos dias foi alvo de incursões de alegados terroristas.
Quase 40 mil pessoas fugiram de seis distritos de Cabo Delgado, e ainda da província vizinha de Nampula, devido ao recrudescimento dos ataques no norte de Moçambique, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).
De acordo com o mais recente relatório do terreno daquela agência das Nações Unidas, consultado hoje pela Lusa, entre 22 de setembro e 06 de outubro, a escalada de ataques e a insegurança provocada por grupos armados levou a “novos deslocamentos” – num total de 39.643, equivalente a 12.335 famílias -, essencialmente nos distritos de Balama, Mocímboa da Praia, Montepuez e Chiúre, Cabo Delgado, mas também em Memba, província de Nampula.
A OIM contabilizou neste período um total de 26.405 deslocados de Mocímboa da Praia, devido à situação de “insegurança” nos bairros 30 de Junho e Filipe Nyusi, arredores da vila sede, palcos de pelo menos dois ataques de grupos insurgentes, com vários mortos, durante o mês de setembro.
Do distrito de Balama, a OIM contabilizou 5.585 deslocados, das localidades de Mavala e Mpake, que fugiram de Ntete e Mieze, enquanto do distrito de Montepuez 3.980 pessoas foram deslocadas, devido aos ataques e insegurança, de Mararange, Mirate e Nacololo.
No distrito de Chíure — que já em finais de julho registou cerca de 57.000 deslocados devido a vários ataques de grupos armados — há mais 1.164 deslocados nos últimos dias, que fugiram de Mazeze e Murocue. Em menor escala, a OIM contabiliza 144 deslocados do distrito de Nangade, 121 de Macomia e 66 de Muidumbe.
Além destes distritos de Cabo Delgado, o relatório da OIM refere que os “recentes ataques” em Memba, Nampula, junto à província vizinha, “também forçaram 2.178 indivíduos a fugirem das aldeias de Chipene e Necoro”, neste caso para o distrito de Erati.
Pelo menos 45 casas de duas aldeias de Nampula foram incendidas em 01 de outubro por alegados grupos terroristas que se deslocaram de Cabo Delgado, segundo o Governo.
A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, rica em gás, é alvo de ataques terroristas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, no distrito da Mocímboa da Praia.
O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, considerou este mês como “atos bárbaros” e contra a “dignidade humana” os ataques terroristas no norte do país.
O Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED) contabiliza 6.257 mortos ao fim de oito anos de ataques terroristas em Cabo Delgado, alertando para a instabilidade atual, com o recrudescimento da violência.
SYCO (PVJ) // MLL
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