Putin quer mostrar vulnerabilidade de países da UE com intrusões aéreas

Copenhaga, 30 set 2025 (Lusa) – O primeiro-ministro estónio, Kristen Michal, defendeu hoje que o Presidente russo, Vladimir Putin, pretende com as recentes incursões de aeronaves em países europeus mostrar a vulnerabilidade destes, para que desviem atenção e recursos do apoio a Kiev. 

“Putin quer que falemos de nós próprios, não da Ucrânia, não de ajudar a Ucrânia, não de empurrar a Rússia para fora da Ucrânia. Isso é bastante claro”, disse Michal numa entrevista à AFP em Copenhaga, na véspera de uma cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia. 

A Rússia aumentou em setembro as suas incursões no espaço aéreo europeu e da NATO, primeiro na Polónia com cerca de 20 drones, depois na Roménia, e finalmente na Estónia, onde a 19 de setembro três caças russos voaram durante 12 minutos no espaço aéreo deste país. 

A isto juntou-se nos últimos dias o sobrevoo de vários aeroportos e bases militares dinamarquesas por ‘drones’, por detrás do qual o governo de Copenhaga suspeita estar a Rússia. 

Para Michal, com esta série de incidentes a Rússia pretende forçar a Europa a reorientar-se e a afastar-se da Ucrânia, da qual se tornou o principal apoiante militar e financeiro desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca. 

Moscovo aposta em que “todos se concentrem mais nos seus próprios problemas, questões internas, nas suas próprias fronteiras, etc., e não pensem na Ucrânia e na Rússia”, afirmou o chefe do governo estónio. 

A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, com o argumento de proteger as minorias separatistas pró-russas no leste e “desnazificar” o país vizinho, independente desde 1991 – após a desagregação da antiga União Soviética – e que tem vindo a afastar-se do espaço de influência de Moscovo e a aproximar-se da Europa e do Ocidente.   

Os líderes da UE vão reunir-se em Copenhaga na quarta-feira para discutir formas de reforçar a sua defesa e apoio à Ucrânia. 

De acordo com Michal, é preciso “ajudar a Ucrânia o mais possível, porque é a linha da frente”. 

“A guerra na Ucrânia está a ser travada para nós”, declarou a chefe do governo da Estónia, antiga república soviética que faz fronteira com a Rússia. 

Na entrevista, Michal manifestou o seu apoio à utilização de ativos russos congelados na Europa, uma ideia que está a ressurgir numa altura em que muitos países europeus estão altamente endividados. 

“Porque devemos pagar? A Rússia deve pagar. É uma questão de princípio”, enfatizou Michal. 

Será discutida pelos líderes europeus na quarta-feira a utilização destes bens congelados, no valor de cerca de 210 mil milhões de euros, para financiar o esforço de guerra na Ucrânia. 

A Ucrânia, defendeu Michal,  não deve contudo eclipsar a necessidade de a Europa reforçar a sua própria defesa, particularmente as suas capacidades antidrones. 

Uma das principais prioridades destacadas por Bruxelas é a implementação de um “muro antidrone” para detetar e, por fim, abater ‘drones’ russos, disse Michal. 

“Devemos agir mais rapidamente, porque, francamente, começar a desenvolver novas capacidades leva tempo”, insistiu. 

“Mesmo que aumentemos o esforço, provavelmente será necessário um ano, talvez mais, para que novas indústrias de defesa se desenvolvam”, explicou. 

A Europa está, no entanto, numa posição muito mais favorável, segundo Michal. 

“Diria que a Europa está muito mais forte do que há seis meses ou um ano”, disse. 

Em Copenhaga, a discussão vai estar centrada no reforço da arquitetura de segurança da UE, para se adaptar ao que o bloco político-económico europeu denominou de “ameaças híbridas”, e o apoio à Ucrânia, depois de se desvanecerem as esperanças de um cessar-fogo a curto prazo para o conflito causado pela invasão russa.

Neste contexto securitário, em que a Comissão Europeia dramatizou e acusou Moscovo de estar a avaliar até onde pode ir, os presidentes e primeiros-ministros dos 27 Estados-membros discutirão como é que podem ser ultrapassadas as debilidades em matéria de Defesa, nomeadamente a indústria de Defesa depauperada em alguns países, as necessidades de aquisição conjunta e de estar a par do desenvolvimento tecnológico.

 

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