Financiamento do jornalismo é obrigação dos poderes públicos

Lisboa, 23 set 2025 (Lusa) — O Sindicato dos Jornalistas (SJ) considerou hoje que o financiamento público do jornalismo “não é o papão”, mas uma obrigação dos poderes públicos em tempos de desinformação e narrativas inventadas.

Vários economistas, incluindo os prémios Nobel Joseph Stiglitz e Daron Acemoglu, alertaram esta semana para o risco do “colapso do jornalismo de interesse público” em todo o mundo, após uma reunião do Fórum sobre Informação e Democracia, em França.

Em resposta ao pedido de comentário da Lusa, o SJ defendeu que “o financiamento público do jornalismo não é um papão, antes uma obrigação dos poderes públicos em tempos de desinformação, notícias falsas e narrativas inventadas que se propagam nas redes sociais como fogo em erva seca”.

A estrutura sindical lembrou que o financiamento público já existe, por exemplo, nos Países Baixos, Suécia ou Noruega e apontou ser fundamental que os governos e os políticos entendam que apoiar o jornalismo “é construir uma sociedade mais justa, equitativa e mais democrática”.

O sindicato considerou ainda ser importante desmistificar os discursos populistas que consideram que os jornalistas se deixam comprar porque o Estado apoia o setor.

Para o SJ é mais perigoso um “jornalismo dependente de interesses financeiros, económicos ou outros provavelmente obscuros”, sublinhando que os órgãos de comunicação social economicamente fragilizados são presas mais fáceis para todo o tipo de interesses.

“Além disso, quem pode censurar a desmotivação de quem ganha o salário mínimo, tendo uma licenciatura ou um mestrado, no desempenho de uma profissão exigente do ponto de vista físico e mental, que é fortemente regulada e que implica uma grande responsabilidade social? Os baixos salários e a falta de condições de trabalho são a maior ameaça aos jornalistas”, acrescentou.

O sindicato disse ainda que a explosão da Inteligência Artificial (IA) fragilizou mais o jornalismo, pelo que os governos e a união Europeia têm a obrigação de compensar a comunicação social e de criar mecanismos de apoio financeiro para que as empresas se adaptem.

Contudo, vincou que a IA é apenas uma ferramenta para o jornalista fazer um melhor trabalho e que não serve para substituí-lo.

“Temos poucos jornalistas, poucos jornais, poucas revistas, poucas rádios de informação. Precisamos de mais jornalistas, mais órgãos de comunicação social, mais pluralidade e diversidade, tanto nos meios como entre os jornalistas que os fazem”, sublinhou.

O SJ referiu também que a regulação existente não é suficiente para proteger o setor e que todo o jornalismo é de interesse público.

Neste sentido, propôs ao Governo, no ano passado, a criação de uma campanha publicitária para demonstrar a importância do jornalismo para a democracia.

Na declaração conjunta, os economistas avisaram que o acesso à informação fidedigna é o recurso fundamental que alimenta a economia do século XXI, tal como no passado dependia “do vapor ou do carvão” para o desenvolvimento industrial.

Para os economistas que assinaram o documento, entre os quais se encontram também Philippe Aghion, Tim Besley, Diane Coyle e Francesca Brian, o recurso à informação é essencial na economia futura, impulsionada pela Inteligência Artificial.

O documento aponta também que os órgãos de comunicação social foram afetados por dificuldades financeiras devido à concorrência “cada vez mais desleal” das grandes empresas tecnológicas e das plataformas digitais.

Os economistas apelam às autoridades públicas para que invistam no jornalismo livre e independente através de subsídios diretos ou indiretos.

PE/PD (PSP) // JNM

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