
Sevilha, Espanha, 20 jun 2025 (Lusa) – O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, alertou hoje para “a urgência de financiamento climático adicional” a paÃses em desenvolvimento e especialmente vulneráveis, como os pequenos estados insulares.
“Com menos de 0,003% das emissões globais, Cabo Verde enfrenta impactos desproporcionais da crise climática, com escassos recursos para responder e reconstruir”, disse José Maria Neves, numa intervenção em francês no plenário da IV Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento das Nações Unidas, que arrancou hoje em Sevilha, Espanha.
O Presidente de Cabo Verde chamou em especial a atenção “para a urgência de financiamento climático adicional, previsÃvel e direcionado à adaptação, especialmente em áreas como as energias renováveis, a proteção costeira, a gestão da água e a sustentabilidade dos oceanos”.
A conferência da ONU que decorre em Sevilha até quinta-feira pretende relançar a mobilização e aplicação de recursos destinados ao desenvolvimento, assim como a cooperação internacional no combate à pobreza, tendo os representantes de mais de 190 paÃses das Nações Unidas subscrito hoje, no arranque do encontro, o documento “Compromisso de Sevilha”, com uma série de compromissos e iniciativas para a próxima década.
Segundo as Nações Unidas, o financiamento para o desenvolvimento está a diminuir e tem neste momento um défice de quatro biliões de dólares anuais (cerca de 3,4 biliões de euros).
“Saúdo a adoção do Compromisso de Sevilha, que poderá tornar-se um instrumento operativo de transformação, se for sustentado por compromissos firmes, mensuráveis e devidamente financiados”, disse o Presidente da República de Cabo Verde.
Para José Maria das Neves, o défice anual de quatro biliões de dólares no financiamento do desenvolvimento “é um alerta global” e “um reflexo das assimetrias estruturais da arquitetura financeira internacional, que continua a penalizar os paÃses em desenvolvimento e, em particular, os Pequenos Estados Insulares”, como é o caso de Cabo Verde.
“Cabo Verde conhece bem essas limitações”, afirmou, dizendo que apesar das reformas internas nas finanças públicas, “ampliando a base tributária com justiça, digitalizando processos, e alinhando polÃticas fiscais e orçamentais” com os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, o paÃs continua a não conseguir superar ou compensar “os constrangimentos sistémicos de um sistema que permanece pouco acessÃvel, pouco justo e pouco responsivo à s realidades” dos paÃses em desenvolvimento.
José Maria Neves sublinhou que, no caso dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS, na sigla em inglês), há “um triplo desafio estrutural” – “uma dÃvida elevada que reduz o espaço fiscal”, “uma base económica frágil, vulnerável a choques externos” e “restrições institucionais na eficácia da despesa pública”.
“Os compromissos assumidos precisam de ser acompanhados por instrumentos eficazes e acessÃveis — desde fundos azuis e verdes, à troca de dÃvida por investimentos sustentáveis, e ao reforço do apoio técnico aos paÃses mais vulneráveis”, defendeu, pedindo financiamento “adequado e urgente” para serem alcançados todos os objetivos assumidos para o desenvolvimento e os SIDS em particular em diversos fóruns multilaterais.
“Defendemos também uma representação mais equitativa dos SIDS nas instâncias de decisão económica e financeira globais”, acrescentou José Maria Neves.
A conferência que arrancou hoje em Sevilha “não pode ser mais uma promessa adiada” e “deve assinalar o inÃcio de um novo ciclo de coerência, corresponsabilidade e solidariedade global, onde o financiamento deixe de ser privilégio e passe a ser instrumento de justiça intergeracional e vetor de prosperidade partilhada”, pediu.
Mais de 60 lÃderes mundiais estão na conferência de Sevilha sobre o financiamento para o desenvolvimento, que ocorre dez anos depois da anterior, na Etiópia, em 2015.
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