
Luanda, 25 mar 2025 (Lusa) — Surpreendidos com o aumento do preço do gasóleo, angolanos ouvidos hoje pela Lusa lamentam a medida governamental, que descrevem como “uma facada no estômago do cidadão” que “geme de fome” e volta a sofrer com a escalada dos preços.
Um dia depois do preço do litro do gasóleo aumentar 50% em Angola, passando de 200 kwanzas (20 cêntimos) para 300 kwanzas (30 cêntimos), luandenses exteriorizaram à Lusa “surpresa e tristeza” pela decisão das autoridades, acreditando no agravar das dificuldades socioeconómicas das famÃlias.
Lamentaram igualmente a “falta de comunicação e proximidade” dos governantes para com o povo, que “grita de fome” dada a carestia de vida, e questionaram as promessas eleitorais do atual Presidente angolano, João Lourenço, sobre a redução dos preços dos derivados do petróleo.
“[Estou] totalmente consternado, estamos tristes com esta nova realidade. Acordámos [segunda-feira] com os preços já a 300 kwanzas, é um escândalo, isso nos remonta até ao discurso do Presidente da República, que, na altura da sua campanha eleitoral, prometeu que o preço do combustÃvel haveria de baixar”, disse à Lusa o motociclista Pedro da Silva.
À saÃda de um posto de abastecimento de combustÃvel na Avenida Deolinda Rodrigues, em Luanda, questionou as razões do aumento do preço do gasóleo numa altura em que o “povo já está apertado” com os altos preços dos bens de consumo.
“A cesta básica é um escândalo, o povo geme de fome e sobe mais o combustÃvel? Significa dizer que a cesta básica ainda vai triplicar. Assim mesmo está bom, senhores governantes? É triste”, desabafou.
Pedro, de 49 anos, disse que não esperava pelo novo ajuste ao preço do combustÃvel, considerando que a medida se traduz numa “facada no estômago do cidadão”, sobretudo numa altura em que “o paÃs está em decadência” e muitas empresas estão a encerrar.
“Isso é acabar por nos matar, por favor, o que está a acontecer neste paÃs?”, questionou.
O taxista Pedro Francisco Luemba, que acorreu às bombas para abastecer a sua viatura, também revelou espanto pelo novo preço do litro de gasóleo, referindo que, doravante, terá de gastar 12.000 kwanzas (12 euros) contra os anteriores 8.000 kwanzas (8 euros) para encher o depósito.
Ao volante do seu “azul e branco” (como são conhecidos os táxis particulares em Angola), Luemba criticou o Governo angolano por falta de informações prévias aos cidadãos sobre as medidas tomadas, afirmando que este “mal” se arrasta há anos.
“O Estado deve conversar com o povo, explicar o que vai acontecer para o povo não ficar surpreendido, agora, de repente, só assustamos [porque] subiu e é muito complicado, a comunicação não flui”, criticou.
O taxista, que há mais de duas décadas transporta passageiros em vários pontos da capital angolana, questionou ainda o destino dos empréstimos que o Governo faz a nÃvel internacional, salientando que as condições de vida dos angolanos se “agravam ano após ano”.
Em vários postos de abastecimento de combustÃvel em Luanda está visÃvel o novo preço do gasóleo, que desde segunda-feira passou a custar o mesmo que a gasolina (também 300 kwanzas/litro), uma subida que, conforme as autoridades, se enquadra no ajuste “gradual e flexÃvel” dos preços de venda ao público.
Heidi Jamba, que é gestora de comunicação, disse à Lusa que a medida vai encarecer mais a vida dos angolanos, porque “está cada dia mais difÃcil”.
“As coisas tendem a subir, há constante inflação e não conseguimos ainda ter um câmbio estável”, realçou.
“Angola com boas terras, [mas] ainda não conseguimos apostar no agronegócio como tal, e, então, a vida vai ficar mais difÃcil”, lamentou, mostrando igualmente surpresa com a decisão.
A caminho do serviço para mais uma jornada laboral, Osvaldina, doméstica, disse que a subida do combustÃvel “vem piorar ainda mais” a vida difÃcil das famÃlias angolanas, que auferem salários desvalorizados e assistem à alta diária dos preços dos bens de consumo.
“Atualmente no mercado com 30.000 kwanzas (30 euros) você não compra quase nada e é tudo muito complicado”, desabafou.
Com a subida do preço do gasóleo, o aumento de preços dos bens e serviços no paÃs será inevitável, referiu o automobilista João Afonso Oliveira, que prevê dias difÃceis para os cidadãos: “E quem fica a sofrer é povo”, reforçou.
Os combustÃveis em Angola são subvencionados pelo Estado, que tomou a decisão polÃtica de gradualmente ir retirando esta subvenção, seguindo as recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI), o que ocorre desde 2023.
*** Domingos da Silva (texto), Ampe Rogério (fotos) e Marcos Focosso (vÃdeo), da agência Lusa ***
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