
Lisboa, 19 mar 2025 (Lusa) – “Crescer à sombra”, primeiro romance da cantora Rita Redshoes, é uma autoficção construÃda através de pequenos episódios que marcaram a sua infância, num meio caminho entre a prosa longa e as “histórias pequeninas” das letras das canções.
Publicado este mês pela Suma de Letras, “Crescer à sombra” é a estreia no romance da compositora, produtora e letrista portuguesa, que já anteriormente fizera incursões na literatura infantil e num livro de sonhos.
A vontade de escrever um romance vem de longe, desde os tempos de adolescência, em que escrevia contos, mas à medida que foi enveredando pela música, esse Ãmpeto “ficou restrito à escrita de letras de canções, portanto, das histórias mais pequeninas, contadas de uma forma mais breve”, relatou a autora, em entrevista à agência Lusa.
No entanto, o sonho do romance não cessou de a acossar e inscreveu-se numa pós-graduação em escrita de ficção, que lhe forneceu as ferramentas necessárias para o tornar realidade, sobretudo depois de ter sido desafiada por um professor a fazê-lo.
O romance tem como protagonista Marta, uma rapariga de nove anos, que é uma espécie de alter ego da escritora, que detesta a escola, mas que cresce livre, no campo, com uma infância marcada pela presença da famÃlia, em particular dos avós, e pelas relações difÃceis com a irmã, com os miúdos da sua idade e com as transformações do corpo a entrar na puberdade.
“Crescer à sombra” está dividido em 34 capÃtulos, cada um centrado num episódio da sua vida, e apesar de se perceber o invisÃvel fio condutor que liga todas as histórias, estas funcionam quase de forma independente, como pequenos contos.
A autora conta que quando começou a escrever tinha “rascunhos de uma data de episódios”, de histórias que viveu, ou vividas por pessoas perto de si, a que assistiu.
“Há episódios que nos marcam, há histórias, há pessoas que nos marcam, e a memória, pelo menos no meu caso, e acredito que também aconteça com muita gente, aquilo que recordamos da infância, acaba por ser [em] episódios. Portanto, quando comecei a escrever, de repente, fez-me sentido passar também essa sensação. Ou seja, não é uma história com um enredo que vai do inÃcio ao fim para chegar a uma grande conclusão, mas, no fundo, crescer é um bocadinho assim, é feito de inúmeros episódios que nos dizem determinado tipo de coisas e nos marcam de uma ou de outra forma”.
Para Rita Redshoes, no entanto, mais do que um livro sobre memória, é sobre reviver a infância, através da construção de uma criança de nove anos “a ver o mundo, com toda a perplexidade que pode ter”.
“Esta personagem [Marta] é um bocadinho madura demais para a sua idade, e é extremamente sensÃvel, portanto acaba por ter uma ligação à s pessoas que estão à volta dela, e à s histórias, muito atenta, não é, por isso, simplesmente a criança que procura só brincar, e comer doces. [É uma criança] que se autoquestiona muito e tem esta perplexidade sobre o que é a vida, e lida também com a perda, com a morte”.
Apesar de ser o livro ser uma autoficção, Rita Redshoes admite que a maior parte das histórias são reais, apenas “apimentadas” em alguns episódios.
“Eu acho que, por acaso, tive uma infância animada, para o bem e para o mal, portanto passei sempre uma data de peripécias interessantes, com personagens à volta interessantes, que me inspiraram muito, e que fizeram também olhar para a vida de uma forma curiosa”, justificou.
O maior desafio que enfrentou “foi como tornar esta história, estes episódios e esta personagem consistentes para dar o tamanho do romance”.
“Tinha sempre escrito coisas mais curtas e, portanto, como estender a narrativa de uma forma que não seja propriamente só a preencher e a escrever carateres para fazer número, mas para contar mais alguma coisa, para acrescentar mais alguma coisa, esse talvez tenha sido inicialmente o meu maior desafio”, admitiu.
Mas a dada altura, as personagens tornaram-se tão reais para ela, que a ajudaram a superar essa dificuldade, acrescentou.
Sobre a escolha do tÃtulo, “Crescer à sombra”, Rita Redshoes conta que procurou fazer uma “conjugação” entre a personalidade de Marta, com os seus traços mais sombrios, e o seu processo de crescimento ligado à natureza.
“A Marta é uma criança com todos os pontos positivos de ser criança, que são muitos, mas é uma criança que relativamente cedo, para a idade que tem, é atormentada por questões mais adultas, mais existenciais. E depois também há, obviamente, esta analogia à questão do campo, de ela crescer no campo, portanto, da sombra, do descanso, do calor”.
Para o futuro, ficou-lhe a vontade de escrever mais, porque além do “prazer de escrever um romance”, foi “um processo também de autodescoberta muito grande”.
“Depois, sinto que a Marta tem ainda mais coisas para me dizer, se calhar para dizer à s pessoas. Portanto, não sei se será na voz da Marta ou não, mas sinto alguma necessidade de contar um bocadinho mais da vida dela, talvez um bocadinho mais crescida”.
AL // MAG
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