
Lisboa, 25 abr 2024 (Lusa) — O Presidente da República cabo-verdiano afirmou hoje que a “manifesta incapacidade” dos governos em responder à s exigências dos cidadãos conduz a fenómenos como o populismo nos paÃses desenvolvidos e à tomada do poder pelos militares nos estados pobres.
José Maria Neves discursava em Lisboa durante a sessão comemorativa do 50.º aniversário do 25 de Abril de 1974, que contou com a participação de chefes de Estado das antigas colónias portuguesas.
“No dealbar do século XXI, surgem sinais que despertam, naturalmente, muita preocupação. Há um sentimento de que a democracia está a ser carcomida, assiste-se a um recuo efetivo e a fortes ameaças”, disse.
Para José Maria Neves, “a globalização tem conduzido ao empobrecimento e compressão da classe média, nos paÃses desenvolvidos, e ao aumento das desigualdades entre e nos diferentes paÃses”.
“Tem havido, por outro lado, um aumento da polarização social e polÃtica — os consensos são cada vez mais difÃceis -, a fragilização das instituições que são importantes instrumentos de intermediação entre o Estado e a sociedade e participantes destacados na formação de polÃticas públicas”, disse.
E acrescentou que se constata ainda “uma manifesta incapacidade dos governos em responder à complexidade da ecologia polÃtica e à s demandas e exigências dos cidadãos e da sociedade civil”.
“Se nos paÃses desenvolvidos tal quadro tem possibilitado o alastramento do populismo, do nacionalismo, da xenofobia, do racismo, do repúdio a imigrantes, e adubado a crise dos partidos polÃticos, a pregação da antipolÃtica e do antiliberalismo, bem como de teses negacionistas, a disseminação de ‘fake news’ e do discurso do ódio, nos paÃses pobres, onde as instituições são mais débeis, tem resultado em ruturas constitucionais e na assunção do poder pelos militares”, observou.
Para o chefe de Estado e antigo primeiro-ministro cabo-verdiano, “é notório um certo desencanto e uma degenerescência dos partidos polÃticos tradicionais, da polÃtica e dos polÃticos”.
“Os eleitores mostram-se cada vez mais céticos sobre a saúde das suas democracias e questionam se os seus governos foram eleitos de forma transparente”, prosseguiu.
Para José Maria Neves, “com a revolução dos cravos, inaugurou-se uma nova era, muito na linha do sonho de AmÃlcar Cabral, cujo centenário [do nascimento] se celebra este ano”.
“Conquistada a independência, deveriam ser construÃdas as mais sólidas e especiais relações de amizade e cooperação entre estes novos paÃses e o Portugal democrático. Ainda bem que o relógio da história avançou e se inaugurou um novo tempo, com vontade mútua, infelizmente não muito comum nos tempos que correm, de reforço contÃnuo das relações”.
“Meio século depois desse fantástico acontecimento histórico, temos todos razões de orgulho e reconforto. Caiu um regime que a todos oprimia e nasceram novos Estados soberanos”, disse.
SMM // VM
Lusa/Fim



