
Lousã, Coimbra, 28 nov 2023 (Lusa) — VestÃgios de pinturas rupestres pós-paleolÃticas descobertos num abrigo rochoso da Serra da Lousã ajudam a conhecer melhor as comunidades que há milénios habitaram o centro de Portugal, disse hoje um arqueólogo envolvido nos trabalhos.
“Foram identificados dois painéis com figuras geométricas e digitações de cor avermelhada”, adiantou à agência Lusa o investigador Filipe Paiva, que vive na Lousã.
O estudo das figuras e das marcas de dedos, “ainda que estejam em muito mau estado de conservação, devido a recentes incêndios” na área do Abrigo da Cascata, foi realizado com recurso a “tecnologias inovadoras de registo e edição de imagem”.
Filipe Paiva descobriu em 2007 aquele abrigo com gravuras na freguesia de Serpins, concelho da Lousã.
“Mas seriam precisos 15 anos para que fossem reunidas as condições” que permitiram “retomar e ampliar os trabalhos de pesquisa que vieram a revelar uma importância cientÃfica e patrimonial inesperada”.
Em 2007, além das pinturas, Filipe Paiva já tinha “encontrado muito material arqueológico no abrigo”, designadamente cerâmicas e artefactos lÃticos.
Entretanto, em 2023, foram efetuadas novas descobertas, no âmbito de uma tese de mestrado do consórcio europeu de universidades em arqueologia pré-histórica, que inclui o Instituto Politécnico de Tomar (IPT).
A tese, segundo o mestre em arqueologia, foi defendida em Ferrara, na Itália, por Negasi Nega, um aluno do IPT de nacionalidade etÃope, estando agora “diversos artigos cientÃficos” em preparação.
“O Abrigo da Cascata revela ocupações no NeolÃtico e na Idade do Bronze, entre cerca de 3.500 e 1.000 antes de Cristo, o que corresponde ao perÃodo em que as pinturas terão sido executadas”, afirmou à Lusa.
“Os motivos são parcialmente idênticos aos que a equipa encontrou junto ao vale do Tejo, nos abrigos do Pego da Rainha, em Mação”, explicou, indicando que é também possÃvel descobrir desenhos semelhantes em Espanha, “sempre na mesma crista quartzÃtica”.
“Estarão, possivelmente, associados a rotas de mobilidade de pastores ao longo do caminho de festo que percorre o topo da serra”, de acordo com Filipe Paiva, cujo achado “foi devidamente registado” no Portal do Arqueólogo, após reconhecimento cientÃfico das pinturas esquemáticas por uma equipa do IPT da qual faziam parte os docentes José Gomes, Pierluigi Rosina e Luiz Oosterbeek.
“A importância do estudo deste abrigo é excecional, com relevante interesse para a compreensão das comunidades que ocuparam o centro interior do atual território português”, acentuou.
Os trabalhos já efetuados resultaram de “uma colaboração entre diversas instituições” (IPT, Instituto Terra e Memória, Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, Museu de Arte Pré-Histórica de Mação e Mestrado Erasmus Mundus em Quaternário e Pré-História), envolvendo ainda os arqueólogos Filipe Paiva, Sara Garcês, Hugo Gomes, Hipólito Collado, Virginia Lattao, Pierluigi Rosina e Luiz Oosterbeek.
Além do trabalho arqueológico, Filipe Paiva, de 40 anos, está ligado a uma unidade de turismo rural da famÃlia e possui uma empresa que promove diferentes atividades com motas, como competições, exibições, ensino e desportos de montanha, entre outras.
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