
Vila Nova de Gaia, Porto, 30 abr 2023 (Lusa) — Um projeto de cães de assistência em curso desde dezembro de 2022 ajudou seis alunos com dificuldades da Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia, a melhorar as notas, assiduidade e comportamento.
A Lusa acompanhou uma hora na vida de cinco dos seis alunos que, voluntariamente, ao inÃcio da tarde de sexta-feira, prescindem da brincadeira para aprender com os cães da associação Ânimas e participam no projeto “Confia”, desta vez interagindo com o Zazu, um golden retriever de dois anos.
Na conversa, a diretora Manuela Carvalho apressa-se a mencionar tratar-se de “um projeto pioneiro na escola pública portuguesa”, explicando depois envolver “alunos do 3.º Ciclo e do secundário, sendo as idades entre os 13 e 16 anos”. Todos rapazes.
“Aqui, o lado emocional é muito mais estimulado e eles são outros. Há uma oposição completa entre o estar no dia-a-dia e quando estão a interagir com o Zazu, a Ervilha ou o Feijão”, acrescentou.
O psicólogo Júlio França completou: “trata-se de alunos que já tinham sido objeto de vários tipos de intervenções e os resultados não foram os pretendidos ao nÃvel da motivação, assiduidade e relações entre eles. Este projeto surge como uma possibilidade de chegar a estes meninos através de um animal e isso promove muito a motivação e a adesão à s tarefas, ao trabalho das competências socioemocionais e do conjunto de regras”.
Testemunhando que a adesão deles ao projeto “foi imediata e em termos de assiduidade muito boa”, revelou viverem atualmente outro problema, o de “haver mais alunos a querer participar”, uma vontade impraticável porque as interações com os cães “só funcionam num grupo reduzido”, disse.
Catarina Cascais é, semanalmente, quem surge à s 14:00 com o cão e explicou à Lusa que o projeto pretende “trabalhar competências sociais e escolares (…) através da alteração do padrão do comportamento”.
“São alunos que entre eles não têm nenhuma ligação sem ser a que se começou a construir aqui no projeto. Aquilo que pretendemos trabalhar é uma série de benefÃcios ao nÃvel da ansiedade social”, acrescentou, antes de assinalar que o facto de os cães não “julgarem” cria “um ambiente livre de julgamentos onde eles [os alunos] são capazes de trabalhar o respeito mútuo, o respeito próprio e, através da interação com o cão, trabalhar a autoestima, a metodologia, a paciência e a resistência à frustração”.
A tutora do animal sublinhou ainda que tratando-se de jovens com problemas comportamentais “a interação com o cão permite que eles baixem as suas defesas”.
“Todos eles apresentam alguns problemas comportamentais e, habitualmente, têm padrões de comportamento desajustados (…) do género faltar à s aulas, disciplinares, agressões, muita falta de motivação e nós pretendemos contrariar um bocadinho isso trazendo para a escola uma atividade que seja mais lúdica, no ponto de vista deles, e depois ensinar-lhes padrões de comportamento adaptativos”, prosseguiu a voluntária da Ânimas.
Cinco meses decorridos, disse, em termos de resultados, o que tem sido reportado “é que a motivação para a escola já está a aumentar, há melhoria nas notas e uma diminuição da agressividade entre eles”, revelou Catarina Cascais.
Mais disponÃvel para interagir com o cão do que com vontade para falar à Lusa, Filipe, de 14 anos, aluno do 8.º ano, revelou ter aprendido “a ter paciência, a ter calma, a saber esperar e a ter amor ao próximo”, enquanto ao lado, Martim, de 13 anos, aluno do 7.º ano, disse que “aprendeu a ficar calmo, a não se chatear e a não gritar nas aulas”, confessando, contudo, que isso “só acontece nos dias em que está com o Zazu”.
“Dava-me jeito ter mais vezes o Zazu na escola”, confessou antes de todos se deitarem todos no solo num abraço ao cão que fez deles um grupo com muita vontade de mudar.
JFO // MSP
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